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Quinze dias de iodo e mar, como uma purga


A segunda quinzena de Julho permite-me um pouco de mar e sol algarvios. Meto na mala de serviço o computador portátil, uma antologia de poesia dos anos 80, a pen com os trabalhos sobre a primeira república, alguns romances, entre eles, para releitura, Os Maias, de Eça de Queirós.

Lagos, como Monte Gordo, são os dois locais, em anos alternativos, dos meus quinze dias de iodo, óbvia distanciação da vida quotidiana torrejana, também um desapego do ecrã televisivo, já que, sem tv cabo, os quatro canais televisivos são do pior e mais abjecto que há na Europa. Vê-los é assumir a estupidificação analfabeta a que os partidos portugueses do centrão condenaram os cidadãos deste país da Ibéria, para poderem manter os seus privilégios, regalias, isenções, impedimentos legais de julgamento e condenação.

Se, na última sessão da Assembleia da República, antes das férias deste ano, se aprovaram, finalmente, algumas leis anti-corrupção, pergunto-me se elas terão mais efeito do que a enganosa publicidade que nos faz um país de muitas e contraditórias leis para obrigar um povo a cumprir o que os que fazem a lei não cumprem.

É sabido que, em Portugal, a lei nunca foi para todos. Nem os tribunais. Nem o ensino tendencialmente público. Nem o serviço nacional de saúde. Nem os empréstimos bancários. Nem o tratamento dentário. Nem o subsídio de desemprego. Nem uma reforma condigna. Nem um vencimento justo.

Vive-se num país onde se paga tudo, haja ou não direitos: o internamento hospitalar, a consulta e a prótese dentárias, os medicamentos. O direito à ( a qual? A qual?) justiça. O que está na Constituição nunca se cumpriu, modificar-se-á, como pretende o PSD, sem se concretizar? Claro que a Constituição ainda é um travão ao desbragamento neo-liberal que, num país de miséria, o transformou no que mais veículos automóveis vendeu no primeiro semestre.

No fim duma vida de trabalho, as multinacionais, que receberam subsídios para se instalarem no país, fecham as fábricas, mudam-se para outros paraísos de escravatura, lançam, como desperdício, sob a venda da burra da política, os trabalhadores para o desemprego. A fome, a miséria, campeiam.Os jovens, que não têm familiares nos partidos políticos do centrão e cunhas para um lugar qualquer, mesmo com recibo verde, ou roubam, ou vendem droga, ou prostituem-se. A própria igreja protesta, avisa, a ruptura social pode ser algo de trágico e tenebroso.

Os intermediários governamentais recebem as suas bolsas de Judas, os seus estipêndios pelas cunhas e possibilidades, resta a quem trabalha, cria o lucro, um pontapé no rabo, anos à espera nos tribunais administrativos dum reconhecimento dos direitos e dum respectivo reembolso. Se houver reclamação colectiva, direito ao protesto, as forças policiais lá estão, como o fizeram em Aveiro, no Congresso Republicano de 1973, para impor o que, em cada época, se considera chamar ordem pública. A liberdade democrática não trouxe o caminho para o desenvolvimento. Sócrates é um mau exemplo de credibilidade, que só apaixona os novos bloguistas ditos socialistas municipais, em busca de votos para cargos político-partidários. Como o são Passos Coelho e Portas. Que justiça esclarece o Freeport? E a questão dos submarinos? Os diversos casos de suspeita de corrupção autárquica, como os últimos casos de Alcanena, (arquivado pelo secretário de Estado), Almeirim, só para citar os que no Ribatejo correram páginas de jornal e o correio electrónico, já que das três centenas de autarquias que o IGAT investiga os resultados são como a partilha do conhecimento duma antiga associação secreta e o ministério respectivo um local iniciático como os mistérios gregos de Eleusis.

A transparência democrática, que Cunhal defendia, mas não seguia, escreva-se, no Partido Com Paredes de Vidro, mantém-se tão opaca e misteriosa, que do Tribunal de Contas e do Supremo Tribunal da Justiça, dos comandos militares, aos ministérios e Assembleia da República, tudo se passa como se fosse um outro país, um tipo de paraíso instalado no meio do inferno que é a vida quotidiano dos portugueses. Leia-se a Ilíada e percebe-se como os deuses se misturam com os homens, não para os ajudar, mas para os subverter e levar à miséria, à guerra, à loucura, ao suicídio, à morte. A vida portuguesa está lá, inteirinha, no poema de Homero.

701 escolas primárias fecham portas, 119 na região de Lisboa e Vale do Tejo, 384 no Norte, 155 na região Centro, 11 no Algarve, substituídas por centros onde impera, sobretudo, a lógica empresarial – aumentar o lucro, diminuir os custos, despedir o desperdício docente, os resultados da aprendizagem serão os que o ministério da Educação quiser mandar para as estatísticas.

Não percebo qual o interesse com que, quem protagoniza o encerramento do humanismo que é a escola da freguesia rural, celebra com foguetória pesporrência o Centenário da 1ª República Portuguesa (ainda que tenha varrido, por incómodo, o bicentenário do nascimento do historiador Alexandre Herculano), já que foi aquela a defensora do ensino gratuito dos 7 aos 12 anos, para rapazes e raparigas, tendo-se desenvolvido o ensino primário pela maioria das freguesias do país.

À escola associava-se, na primeira república, a luz da civilização; ao quotidiano de hoje, um bocejo de saturação. O mundo liberal, assente na especulação financeira, não se coaduna com a humanização da vida em sociedade. Daí que se vão fechando, com fragor, as portas do futuro, para uma Europa incapaz de ser social. E Portugal? Quase no fim da lista, é um fartar vilanagem…

Como ainda se me permite, neste mês de Julho, um pouco de ar, neste país de nevoeiro cada vez mais denso, de injustiça e corrupção, vou – me afastando, cada vez mais agoniado da falta de ética, de respeito cívico, de justiça social, de transparência democrática, da política portuguesa. O Ensaio sobre a Cegueira de Saramago cada vez é mais actual . Também me acompanha, nestes quinze dias de possível lazer.

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