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As Megas – Escolas e o País Mínimo

 

Quem anda a fazer uma política de encerramento de escolas com menos de 20 alunos, já tendo fechado mais de 10, deve estar a cumprir algum plano secreto do neo-liberalismo que, segundo o pai da democracia portuguesa, Dr. Mário Soares, está a dar cabo da Europa.

 

De facto, quando se olha o mapa europeu, Portugal é uma coisa à ponta, que Fernando Pessoa queria que fosse a cabeça dum novo neo – sebastianismo, e o marxista José Saramago despegou ibericamente em livro e empurrou para o Atlântico, com medo do que desses estados democráticos nos viria. A Europa nunca nos ligou, quando gritávamos, no fundo do túnel, ajudem-nos a mudar o regime fascista, porque haveríamos de, hoje, lhe bater palmas? Ambos em desacordo acordado com o Dr. Salazar que, num acesso de santíssima previsão, defendia a lusa ignorância e o são ar camponês, com o orgulhosamente sós com que, durante décadas, acreditávamos que era mais fácil um rico passar pelo buraco duma agulha que entrar no reino dos céus.

 

A Europa era, então, algo que a censura cortara dos livros escolares e dos mapas do Automóvel Clube de Portugal.

 

Para se ir à Europa eram precisos tantos requerimentos em papel selado, tantas certidões do registo civil e do pároco da freguesia, a chancela da senhora câmara e da Pide, que era uma coisa bem mais utópica do que ir a Ouguela e espreitar Espanha, embora Badajoz se tivesse à mão  pelos trilhos dos contrabandistas do café.

 

Talvez por isso, um povo que não sabia duas letras do tamanho dum combóio, mas esfalfado da miséria do sítio e da guerra colonial, se pôs de pata ao léu pelos trilhos da raia e se fez emigrante em França, nos bidonvilles de Paris, na construção civil do Luxemburgo, um pouco por toda uma Europa, que lhe pagava sem moeda única, mas forte e poderosa como as paredes das moradias que construiu nas terras da aldeia de origem, para demonstração de que substituía o Brasileiro das novelas de Camilo. Tudo se fazia pelos filhos que iam nascendo por esses países e, com a dupla nacionalidade, se iam despegando nas gerações seguintes, dos lares de origem familiar, que da língua, se mal a sabiam os antepassados à partida, a foram esquecendo ou reenchendo de neologismos originalíssimos, já que a pátria, a troco dos carcanhóis que encheram bancos e permitiram grandes negociatas a chicos espertos à custa da sua ingenuidade e sentimentalismo luso, os abandonou à sorte da escravatura do Europeu a quem convinha mão d’obra barata e uma incultura do tamanho dum país para o desenvolvimento dos seus.

 

À Europa chegámos, mais tarde, com Abril. E à  Comunidade anos depois, pela porta dos Fundos.

Vem isto tudo a propósito do elogio feito por Sócrates a Lurdes Rodrigues, que publicou recentemente um best-seller sobre educação, o recem Kamasutra da genialidade educativa portuguesa, do qual Santana Castilho, na sua crónica de o Público (7/7/2010), diz o que o macaco nunca disse do amendoim: um livro híbrido e frio, como a autora…que chegou a ministra sem nunca ter percebido o que é uma escola e para que serve o sistema de ensino.

 

Ao (in)justificar a (des) promoção – o primeiro ministro, que muito se honra de ter trabalhado  com ela, não explica por que a teve de a  substituir por uma autora de livros infantis. A senhora lá ficou, como prémio de consolação, com a administração da Fundação Luso-Americana e o elogio do grande educador José Sócrates.

 

A política das megas escolas é um exemplo do mundo ao contrário da Alice no país das maravilhas. Sei o que elas são, na prática, de negativo, já que a Escola Secundária Maria Lamas chegou a ter mais de três mil alunos, o que levou à criação do Artur Gonçalves e da Chora Barroso, nos Riachos. Já ninguém se entendia: professores, alunos, encarregados de educação, funcionários.

As megas – escolas não só desertificam as aldeias em nome do progresso. As crianças circulam de equipamento em equipamento, perdem-se raízes emocionais, de avós, de tios, de amigos, de património, de espaço físico e psicológico, de identidade.

 

As aldeias, hoje, são ruínas, onde a paralisia e a decepção dominam. As pequenas conquistas da civilização, como os centros de saúde, a melhoria nas salas de aula, os centros de convívio, as colectividades existentes, deram lugar a uma concepção política baseada na massificação, no economicismo, na automatização, na inteligência artificial, sem nenhum objectivo de curto e médio prazos.

 

Falamos duma infância que entra e sai diariamente de autocarros, que segue em fila sob a orientação de adultos,  aprende as línguas que os fazem os melhores futuros empregados de mesa duma Europa que não fala nem quer saber da sua, ou duma caixa duma média ou grande superfície, que regressa ao fim do dia à sua aldeia, onde talvez o espere um animal de estimação, que os amigos da escola vivem noutros locais com os mesmos problemas de desintegração, e ainda tem que ver os livros que traz e leva sem abrir além da escola, que o tempo é escasso, o cansaço aperta e, manhã cedo, começa de novo a lavagem ao cérebro que a sociedade competitiva e do consumo usa para o enquadrar numa estrutura previamente organizada. Brincar? Só em sítios próprios, vigiados, policiados, que a aldeia, desde que aderiu à civilização tecnológica, já não está segura.

 

Mas não procurem aí os filhos da maioria dos políticos dos partidos da direita e centro que nos couberam, dos empresários, da alta administração do Estado, das magistraturas, das altas patentes militares, porque os colocaram fora deste jogo que não passa dum logro, em escolas privadas, em universidades de elit6e, em países regra geral anglófonos..

 

Licínio Lima, professor de ciências de educação na Universidade do Minho, ironizava, num blogue que me chegou por correio electrónico: «Em Portugal descobrimos uma teoria nova, um contributo que damos para a humanidade: nas escolas pequenas os alunos não aprendem.»

 

Talvez por isso a Europa, por sermos pequenos, por sermos incultos, por nem no futebol valermos, ao contrário da Espanha, nos trate do futuro, como Sócrates trata das escolas rurais: um país mínimo com a mania das grandezas, a viver à nossa custa, não tem razão de existir…

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