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Uma viagem de comboio

 

Gare do oriente, de regresso a casa. Esperarei na bicha para comprar bilhete. A que horas é o próximo comboio? Chega às 17.02. É rápido? Diz-me o preço do bilhete e passa-me um horário para as mãos, depois responde-me: é o primeiro a lá chegar, mas é regional! Deixá-lo, há já muito tempo que não viajo de comboio mais minuto menos minuto, que me interessa isso?

 

Na gare acotovelam-se pessoas. Espero um pouco, e lá vem ele pachorrento como se tivesse todo o tempo do mundo, ao contrário dos TGV e das altas velocidades para os quais todo o tempo é pouco. A bem dizer não é bem um comboio uma automotora, isso sim, e bem cheia por sinal. Deixo-me ir de pé oscilando ritmadamente. A linha corre entre casas, perto de estradas, por vezes uma ou outra Alverca, salina ou antigos esteiros, eu sei lá…Dois ou três pernilongos, permanentemente vestidos de luto, entristecem ainda mais a paisagem triste que, a custo, recupera dos atropelos causados pelos homens …Vem-me à memória o livro escrito para os filhos dos homens que nunca foram crianças. A marcha prossegue. Não se vê o Tejo mas pressente-se. Passamos pelas viagens na minha terra escritas antes da linha do comboio que apenas foi inaugurada em 1856. Santana/ Cartaxo – algumas vinhas e o horizonte torna-se mais alegre e florido. Vale de Santarém, ouve-se o melro a tocar flauta. Muitos campos de pousio. Pouca terra, pouca terra. Colinas vestidas de verde, umas encostas pintadas de pampilhos que parecem sóis em miniatura; outras, com soagens em pinceladas arroxeadas; aqui e ali, autenticas aguarelas, ramalhetes rubros de papoulas anunciando, sem imposturas tolas, pic-nics de burguesas. Uma ponte, sobre pilares de pedra, toda em ferro rendilhada como uma franja de croché. Outra: um viaduto curvilíneo em betão armado quase suspenso no ar. Finalmente o Tejo muito sereno, acompanhado apenas por meia dúzia de salgueiros. Várzeas limitadas por alamedas de freixos. Um ou outro choupo na sua imponente verticalidade. Vale de Santarém, ainda por cá cantam os rouxinóis. Passa outro comboio mais apressado. Tudo treme, treme tudo, num assobio medonho. Mais uma ponte, recente, muito leve suspensa por cabos de aço, misto de ferro e betão. Santarém encarrapitada no cimo do monte das não sei quantas muralhas a olhar o rio. Perco-me pelos painéis de azulejo que retratam cenas antigas para sempre confinadas a bilhetes-postais. Uma cocheira de carruagens, com coruchéus de sabor mourisco. Continuamos. Perdemos de vista o Tejo. Mais vinhas. Uma quinta em cima dum monte. A linha encosta-se agora aos antigos terraços, e corre na fronteira entre a lezíria e a charneca. A propriedade divide-se mais quase que se percebem os antigos foros. Vale figueira. As colinas ondulam-se mais, cruzamos o Alviela e os campos alagados. Bosques de carvalho cerquinho  e matos cobrem as encostas mais agrestes. A estação tem um ar abandonado, um antigo guindaste em ferro enferruja-se sem uso. Ao longe os silos, vestígios de uma agricultura farta que já não tem sentido e que até enfraqueceu o solo. Um milhafre cruza o céu, eucaliptos com ninhos de cegonha. Mato de Miranda. Aqui dominam as grandes quintas e o chão é fértil. Quem se queixou, ao voltar à sua terra, Azinhaga, da saudade dos olivais? Agora passo em terrenos que conheço bem. Braço de cortiça. Aqueduto do Cto dos Finados. A Várzea toda alagada. Quinta do Paul. Quinta de Caniços. Uma ponte sobre o Almonda. A Unital. A nauseabunda vala das cordas autêntico esgoto a céu aberto. Riachos, Torres Novas, Golegã. Estação que é de três terras apesar de estar só numa.

 

Os carris cruzam-se, entrelaçam-se, dividem-se, afastam-se, convergem … Percebe-se já o Entroncamento. O comboio esvazia-se mas, na estação, uma voz monocórdica e grave anuncia ainda: dentro de momentos vai sair da linha n.º2 do Norte o comboio regional, procedente de Stª Apolónia com destino a Tomar, efectua paragens em todas as estações e apeadeiros…

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