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A propósito do 50º Aniversário do Cine-Clube de Torres Novas

 

«Os cine-clubes são a ninfa da cultura cinematográfica. O seu papel na educação do público merece da parte dos realizadores de filmes o melhor aplauso e toda a simpatia…».

 

  Vittorio de Sica (realizador italiano)

 

 

«Quem gosta da vida ama o cinema», afirmou um dia François Truffaut, cineclubista, crítico e realizador francês já desaparecido. Na verdade os Amigos do Cinema estão de acordo com esta afirmação.

 

Foi a 26 de Fevereiro de 1960 – há 50 anos – que o Cine-Clube de Torres Novas realizou a sua primeira sessão de cinema, no Teatro Virgínia, tendo apresentado o filme francês de René Clement, «Brincadeiras Proibidas», tendo sido comentado pelo cineclubista Manuel da Silva, do Cine-Clube Imagem, de Lisboa.

 

Foram, sem dúvida, 50 anos de actividade cultural e cinematográfica sem paralelo na vila e depois na cidade de Torres Novas e para assinalar tão rica efeméride preparámos uma breve retrospectiva sobre os primeiros passos dos clubes de cinema em Portugal, que mais tarde viriam a transformar-se em cine-clubes, seguindo as pisadas dos cineclubistas franceses.

 

Tudo na vida tem um tempo para nascer e como não podia deixar de ser, houve um tempo para os clubes de cinema surgirem. Roberto Nobre, no seu livro «Horizontes de Cinema» diz-nos como foi: «…lembro-me bem quando foi da célebre pateada com que o público do Tivoli recebeu o filme «Deshumana», de L’Herbier, realizado em 1923. Isto porque o filme era então a última palavra de vanguardismo em cinema. Houve apenas, em todo o teatro, três pessoas que se puseram de pé a dar palmas. Eu estava ao lado de Ferreira de Castro e Carlos Porfírio um pouco mais longe. E todos três nos batemos furiosamente contra uma plateia inteira que impunha as suas ideias conservadoras com os tacões…» Esta atitude destes três intelectuais levou mais tarde ao ressurgimento dos Clubes de Cinema.

 

Não era fácil no longínquo ano de 1959, lançar as estruturas duma colectividade cultural e cinematográfica, com as características dum cine-clube.

 

Era um movimento em expansão no País, todavia continuava a ser olhado pelo Poder vigente, uma ameaça aos falsos valores de então. Mas apesar de todas essas dificuldades – a vigilância da PIDE e os cortes da censura a filmes e a textos, os cineclubistas torrejanos não desanimaram e com a ajuda e colaboração dum homem da Cultura torrejana, que foi o saudoso Dr. Guimarães Amora, mercê da sua influência, foi possível avançar e ultrapassar uma série de dificuldades.

 

No Ribatejo já existiam dois cine-clubes que desenvolviam uma interessante actividade cinematográfica, dinamizados por Fernando Duarte (cine-clube de Rio Maior) e Alves Castela (cine-clube de Santarém), ambos já falecidos. Foram vários os apoios que nos prestaram para a elaboração dos estatutos. De Lisboa veio a ajuda da experiência, na pessoa do bom amigo que sempre foi, Henrique Espírito Santo, do Cine-Clube Imagem.

 

Depois dos contactos estabelecidos, surgiu a Comissão Organizadora, faltando somente um pormenor: a escolha de uma figura ligada ao sector comercial de filmes, tendo recaído na pessoa de Justino Ferreira Gaspar, funcionário administrativo da Câmara Municipal e gerente do Teatro Virgínia. Este amigo que já partiu também, apoiou-nos desde a primeira hora, vindo a fazer parte da Comissão Organizadora.

 

Desde a sua fundação em 1960, rapidamente o Cine-Clube atingiu os 800 associados, sendo necessário alugar o 1.º balcão e plateia. Era outro o tempo e onde a liberdade morava em cada cineclubista torrejano. A actividade cultural e cinematográfica era muito e diversificada, daí considerarmos o ano de 1962, como o ano de ouro da vida do Cine-Clube pelo elevado número de realizações levadas a cabo, com duas idas a Lisboa, à Gulbenkian e à ópera, além de outras de grande alcance cultural.

 

Ao olhar hoje para trás e ao recordar os tempos vividos com entusiasmo e amor ao cinema e à cultura, é com um bocadinho de orgulho e de satisfação que podemos afirmar que valeu a pena tantos sacrifícios, com outros amigos que infelizmente já partiram, em prol duma colectividade cultural-cinematográfica que foi uma das pioneiras que em Torres Novas mais se dedicou aos problemas da cultura, a partir dos anos sessenta até 1974, com a chegada do 25 de Abril. Depois o Cine-Clube passou a escrever outra história com a chegada da Liberdade.

 

Hoje que se comemora 50 anos que o Cine-Clube realizou a sua primeira sessão, não podíamos deixar de assinalar esta efeméride, em nome da Comissão Organizadora e da qual fizemos também parte.

 

E para que conste aqui ficam os seus nomes:

 

Dr. Guimarães Amora

Joaquim Canais Rocha

Justino Ferreira Gaspar

Francisco Nelson de Lima

Vítor José Caetano Nicolau

António Maria Teixeira da Silva Paiva

José Henriques Pereira dos Santos

Rogério Paulo e Silva Paulo

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