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Notícias dos militares torrejanos no Kosovo

 

Gostaria de começar este breve apontamento, referindo que é com enorme orgulho e redobrado prazer que me dirijo a tão distinta audiência como é a do Jornal “O Almonda”. Estou, por isso, imensamente reconhecido à sua direcção pela oportunidade que me dá em escrever umas singelas palavras, a partir deste canto distante e oposto da Europa, para todos os leitores do mesmo, não esquecendo os torrejanos que se interessaram pela missão que o 1ºBatalhão de Infantaria Mecanizado, sedeado em Santa Margarida, está a desenvolver, Unidade que tenho a imensa honra e privilégio de comandar. Este texto tem, pois, a dupla finalidade de, por um lado, agradecer todo o apoio que temos recebido e, por outro, dar a conhecer um pouco o nosso trabalho ao serviço da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) de que Portugal é membro de pleno direito.

 

A missão da OTAN no Kosovo, desenvolve-se ao abrigo da Resolução n.º 1244 de Conselho de Segurança das Nações Unidas e as suas principais tarefas consistem em garantir a liberdade de movimentos em todo o território e criar as condições para que se verifiquem um ambiente e um sentimento de segurança, permitindo que as instituições locais possam cumprir as suas obrigações e exercer as suas competências.

 

O nosso Batalhão, com um efectivo de duzentos e noventa (290) militares, dos quais trinta e um (31) são mulheres, está aquartelado em Pristina, capital do Kosovo. A maioria das instalações (alojamentos, cozinha, refeitório, ginásio, salas de convívio, gabinetes de trabalho e outras) são modulares do tipo “contentor”. Apesar de poderem parecer, à primeira vista, inóspitos, eles são bastante confortáveis, tendo em conta que são totalmente aclimatizados. Felizmente que ainda não se fizeram sentir, até ao momento, temperaturas muito baixas, mas é vulgar registarem-se valores da ordem dos quinze a vinte graus negativos.

 

No que respeita à nossa missão, o Batalhão português constitui a Reserva Táctica Terrestre da Kosovo Force (KFOR) e, por via disso, depende directamente do Tenente-General Comandante (Cmdt) da mesma, razão pela qual o Cmdt de Batalhão tem assento na Conferência de Cmdts. Por isso, somos a primeira Unidade a ser utilizada, caso as Forças que estão implantadas no território não tenham a capacidade de resolver todos os incidentes que surjam. Como tal, o Batalhão, que no Teatro de Operações (TO) assume a designação de KFOR Tactical Reserve Manoeuvre Battalion, encontra-se, em situação normal, com um prazo de prontidão muito curto (em determinados casos, como se verificou durante as recentes eleições municipais, este prazo foi ainda mais reduzido). Face ao quadro descrito, poder-se-ia presumir que, enquanto reserva, apenas ficaríamos a aguardar que algo sucedesse. Mas não é, de facto, assim. A KFOR estipulou um vasto programa de exercícios e de operações para o Batalhão, com a dupla finalidade de mantermos validadas as nossas competências e de reconhecermos e tomarmos contacto com todo o TO. Nesse sentido, para além da Unidade estar certificada para ser transportada em todos os tipos de helicópteros ao serviço da KFOR (UH 60 BlackHawk, MI 171 e SA 332 Super Puma), já cumprimos cinco (5) Operações de Reconhecimento, cada qual com a duração de uma semana, o que possibilitou que tivéssemos trabalhado com todos os contingentes presentes no TO – de vinte e três (23) países. Reconheço que, não obstante os proventos daí resultantes para o cumprimento da nossa missão – sem dúvida o mais importante –, este facto constituiu uma rara e, simultaneamente, valiosíssima experiência para os jovens quadros do Batalhão, bem como, para todos os soldados que puderam contactar com militares das diversas nacionalidades. Por via deste empenhamento, as nossas viaturas já percorreram um total acumulado de 76.584 km e cada militar do Batalhão já pernoitou, em média, quinze (15) noites fora do nosso aquartelamento, em outras bases militares da KFOR, ainda que em condições de alojamento pouco menos confortáveis das que possuímos.

 

Procurando caracterizar a nossa semana padrão, ela é de actividade plena desde segunda-feira a sábado, verificando-se um abrandamento da mesma, sempre que possível, ao Domingo, procurando-se que o almoço, neste dia, seja tipicamente português. Este é o dia para participarmos na eucaristia (celebrada na nossa capela), para recebermos camaradas militares convidados de outros países que vêm apreciar os nossos sabores, bem como, outros cidadãos portugueses em serviço no Kosovo (maioritariamente colaboradores da União Europeia) que fazem do Batalhão português o seu ponto de encontro ao Domingo, para, de entre outros motivos, poderem conviver connosco e saborearem o bom e inigualável café luso. Ao sábado, a noite é reservada à execução de algumas actividades inseridas no plano de moral e bem-estar. De entre as já efectuadas, destacam-se os torneios de “sueca” e de snooker, o jogo do bingo e um espectáculo (caseiro) de karaoke. Os jogos da Selecção Nacional de futebol, vividos intensamente, são sempre outros dos momentos que fortalecem o espírito de coesão. Por iniciativa dos militares do Batalhão, a receita apurada nos jogos do bingo e em outros eventos será convertida em materiais didácticos, proporcionando, assim, alguns momentos de maior alegria às crianças mais necessitadas. A propósito de solidariedade e apesar dos parcos recursos (materiais) disponíveis para este efeito, foi possível desenvolver algumas actividades de apoio à população civil – que, obviamente, apresenta carências básicas de vária ordem. Uma das acções já realizadas (encontram-se outras em fase de planeamento) teve lugar numa pequena escola “primária” em que foi oferecido algum material escolar e até mesmo artigos de limpeza – referido pelo director da escola, como bens que escasseiam com muita frequência.

 

Enfim, o tempo vai passando bem depressa, aproximando-se a passos largos o Natal. Esta festividade vai ser vivida o melhor possível, de acordo com as nossas tradições, salvaguardando, naturalmente, a execução das tarefas operacionais que nos estão destinadas. Está planeado realizarmos a consoada – cujo bacalhau já chegou até nós –, a distribuição/troca de prendas e a Missa do Galo à meia-noite. Será um Natal diferente para a grande maioria de nós, longe das famílias. A nossa condição de militares bastaria, por si só, para o justificar plenamente. No entanto, encaramos esta pequena contrariedade com gosto e orgulho, cientes de que estamos a servir a Pátria respondendo ao seu chamamento, onde e quando ela o ditou.

 

Em nome dos militares do 1ºBIMec/BrigMec/KFOR, desejo a todos um Feliz Natal e um Próspero Ano Novo, enviando os nossos reconhecidos agradecimentos por todo o apoio que temos recebido e por todo o interesse que a nossa missão tem suscitado.

Lino Gonçalves

Tenente-Coronel do Exército

 

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