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Se eu fosse hoje…

 

Se hoje tivesse asas eu voaria para bem longe daqui. Se hoje fosse mágico eu faria uma magia para desaparecer. Se hoje fosse Deus eu traria de volta todos aqueles que já partiram da minha vida e do meu bairro. Bateria em todas as portas, entraria em todos os quintais e chamaria todos para a grande festa da vida!

 

Porém, não sou ave, não sou mágico, e muito menos sou Deus. Não posso entrar em cada quintal, bater a cada porta, porque cada casa deste pequeno bairro neste momento tem uma lágrima, um sufoco, um grito desesperado. Cresce uma tristeza profunda no meu coração, uma dor difícil de suportar.

 

Hoje partiu mais um vizinho meu. E em cada ano parte mais um e mais outro. Fico a olhar através da minha janela a chuva que massacra este chão; o vento violento que derruba as nossas forças. Fico a escutar os sons, das vozes dramáticas, o desalento que povoa cada rosto. Sinto revolta por ouvir conversas cruzadas, histórias sem nexo. O povo comenta, passa de boca em boca e no autocarro com os vidros embaciados continuam essas ladainhas. Parece que são infinitas e mesmo que eu tenha muita esperança fico ali tremendo de ansiedade, de medo.

 

Chego à conclusão que não vale a pena andarmos de costas voltadas, porque quanto maior é o rancor, quanto maior é a indiferença, mais solidão enfrentamos. E a solidão sente-se e podemos morrer com ela.

 

Escrevo este simbólico desabafo, porque não vivo numa grande cidade, na qual todos os dias se perdem pessoas, mas quase ninguém se conhece. Aqui nesta pequena “caixinha de fósforos” todos se conhecem, trabalharam juntos na Fábrica da Fiação e Tecidos, os seus filhos andaram na creche e hoje os netos continuam a frequentar o bairro. São estas crianças que me dão energia com os seus sorrisos.

 

Hoje resta-me recordar os momentos passados com todos os que já deixaram esta vida, especialmente com o meu pai!

 

Paz às suas almas!

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