Home > Colaboradores > Jorge Pinheiro > Na Banca em Alcanede – Os amigos e o toque do sino

Na Banca em Alcanede – Os amigos e o toque do sino

 

Ao fim de doze anos de bancário, após nove anos na Golegã e mais três anos em Vila Nova da Barquinha, por volta de 1986, chegou a vez de ser nomeado subgerente na Agência do BFB de Alcanede, localidade que confesso pouco me dizia e que conhecia só de passagem.

 

Por isso, antes de iniciar a minha sub-gerência, num Sábado de manhã aí vou eu, no meu Fiat “850 special”, com a minha esposa e o meu filho José Manuel até Alcanede, a fim de poder conhecer pelo menos onde se situava a porta da Agência, para não ser apanhado totalmente às escuras na segunda feira seguinte.

 

Ao chegar, parece que ainda estou a ouvir o meu filho perguntar à mãe: “Oh mãezinha, o papá foi castigado, para vir para aqui?”. Fingi que não ouvi, disse-lhe que não, que até tinha sido promovido e que muitas vezes o que parece não é. E não foi.

 

O Gerente da altura, apresentou-me à equipa, realçando ter achado estranha a minha nomeação, quando tudo se inclinava para um elemento da equipa, já antigo na Agência. É certo que antes do discurso, o Gerente já me tinha avisado para eu aguentar e engolir uns sapos, para não me ir abaixo com algumas das suas palavras, mas eu não esperava ouvir aquilo da sua boca. Ele, Antunes de seu nome, era um mestre em agradar aos santos e ao diabo. Depois, voltando-se para o diabo, que era suposto ser eu, fez rasgados elogios às minhas qualidades profissionais e pessoais e que, seguramente, a confirmarem-se as informações que possuia de fontes idóneas, eu iria rapidamente e com facilidade, ter a simpatia e a colaboração de toda a equipa. Discurso feito e a permanência do Gerente na agência, durou apenas… três dias, nem mais nem menos… três dias, com a ausência a ser motivada por dores na coluna por causa de um acidente de viação. Nunca mais voltou a Alcanede.

 

E cá está o rapaz, verdinho como uma alface e tenrinho como um franganito, a fazer o papel de dois em um (gerente e subgerente).

 

Com o escolho que era o tal elemento, a princípio algo injusto, lá me fui safando com a ajuda da rapaziada, do Afonso a quem fui substituir, do Zé Inácio, do Rogério, do Jorge Luís, do Jorge Raimundo, do Soares (lá das bandas de Lisboa) e das três meninas, a Rosa, a Isabel e a Vanda.

 

E aos poucos até o tal rapaz, começou a colaborar muito bem no serviço da Agência, que tinha um movimento muito considerável, em especial aos dias de mercado, às Sextas-Feiras, que era todo o dia cheio até à rua, entrando os clientes só para retirarem a chapa da sua ordem e saindo logo de seguida, para a tasca da Cassilda e do Serafim, onde entre dois copos de vinho e um petisco, aguardavam a sua vez…   

 

Aquilo era uma malta de respeito, que aliada a umas dezenas de clientes e bons amigos, faziam com que alguns finais de dia terminassem numas boas jantaradas de bacalhau, no Serafim, que normalmente acabavam com fados e cantares à mistura. E até o referido colega, que era um bom executante de saxofone, para além de maestro afamado de algumas bandas filarmónicas de renome, como as da Gançaria e do Xartinho, uma noite num jantar, no intervalo para a sobremesa, foi a casa buscar o seu saxofone e arrancou um valente “passodoble” que até fez chorar as pedras da calçada.

 

A malta até me disse que a coisa estava mesmo a melhorar, pois nunca o tinham visto ir buscar o saxofone e ali ao vivo e sem rede, tocar magistralmente aquela peça.

 

E estava mesmo a melhorar. Foram três anos de Alcanede que jamais poderei esquecer. Aos colegas atrás referidos, acrescento o Amarino Rocha, mais tarde a ingressar no BCP, rapaz do norte, que vinha namorar a Torres Novas, a minha casa, com a Dra. Helena Santo de Rio Maior, que foi secretária geral do CDS e com quem casou em Fátima mais tarde.

A esse até o tive de ir acordar a Alqueidão do Mato, onde residia, depois de uma noite bem bebida com o Zé Inácio. Mas este ia aos treinos, e tinha outro estofo, enquanto que o jovem Amarino não se aguentava com a pedalada. Mas o que interessava era o trabalho e esse sempre resultava bem e sem problemas.

 

Quanto aos clientes, relembro o António Peixe da Gançaria, o João do Talho, o Brás, o Arnaldo, o Frazão, o Armindo, o Periquito, o Firmino Grave, o Jorge Heleno, o Montez, o Albertino, o Joaquim Henriques, o Serafim e a Cassilda, o Fialho e esposa, o Jesuíno, os Vicentes e muitos, muitos mais, para quem ser cliente era ser amigo, e ali o bairrismo não era palavra vã.

 

Bem hajam todos pelo bem que me proporcionaram e ficou de todos vós um bocadinho no meu coração. Eu que tinha ido de antevéspera

para ver onde era a porta do banco e que ao sair para Santarém, ao fechar a mesma porta, chorei de saudade de tanta coisa boa que Alcanede e os alcanedenses me ofereceram. Felizmente era noite cerrada e ninguém notou.

 

Em Alcanede só encontrei gente humilde, gente educada e amiga, gente trabalhadora e sobretudo gente muito séria e de extrema confiança.

 

Assim, com pessoas destas, é fácil ser gerente seja do que for. Só vou terminar, reafirmando que Alcanede continua a ser a minha segunda terra, tenho-o dito e redito e aqui ficará escrito este meu sentimento. E direi mais, que quando por lá passo ao ouvir o sino da igreja, eu sinto que faço parte daquela gente, embora de uma forma insignificante, pois um dia, alguém foi ao Banco, dizendo-se iluminado pelo Senhor e com a benção do Padre Simão, pedir dinheiro para o sino novo. A minha resposta foi esta: “Não sei se o Banco dará alguma coisa, mas para já, eu e a minha malta oferecemos cinco contos e que o sino toque”. E penso que ainda hoje continua a tocar.

 

Jorge Pinheiro

Deixe-nos o seu comentário pelo facebook