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Não por acaso, isto não é só uma crónica só nacional

 

Não sei se vou «comprar» mais uma guerra com o poder político. Mas, se acontecer, paciência.

Como se lia no editorial de O Público do último domingo, em relação ao conteúdo das gravações a Armando Vara, onde aparece, por amizade, o primeiro-ministro José Sócrates, que o presidente do Supremo Tribunal da Justiça mandou, por considerar inválidas as escutas e ordenar a sua destruição, e o Procurador Geral da República subscreveu, o país não está surdo.

 

Pessoalmente, considero que quem faz as leis, não as cumpre. E o pretexto legislativo que permitiu o presidente do Supremo Tribunal de Justiça substituir-se ao plenário do mesmo, não surgiu por acaso na lei, que o PS, apoiado na última legislatura, na sua maioria absoluta, aprovou, tornando parte ínfima da governança, acima da própria Constituição, onde se afirma que não há cidadãos, independente do seu cargo, acima da lei. O poder legalista arbitrário conferido ao Presidente do Supremo Tribunal da Justiça, permitiu-lhe um julgamento ex-divino, acima e além do texto constitucional. O amigo do primeiro-ministro, por estar na conversa telefónica com este também fica ilibado, porque, segundo a lei aprovada pela então maioria absoluta do PS, hoje relativa, Sócrates não poder ser escutado sem a autorização superior daquele presidente. Não importa que nessas conversas se tenham denotado, segundo é público, «indícios de prática de um crime contra o estado de direito». O bonapartismo legalista, tão próximo do poder das ditaduras, substitui o direito democrático do conhecimento da realidade. Leio no Correio da Manhã deste mesmo domingo que as conversas de Sócrates com Vara atingem, além de assuntos sobre o poder na TVI, ou do proteccionismo em relação a um dos maiores monopolistas dos media portugueses, de forma contundentemente humilhante, a idoneidade de políticos da oposição, e que isso estava, se tais conversas fossem públicas, a preocupar grupos do partido socialista. Fica-se a saber, este domingo, que o Procurador Geral do Ministério Público, que na primeira página do Expresso, de 14 de Novembro, afirmava «se depender de mim, divulgo as escutas para isto acalmar», nem 24 horas depois dava o dito por não dito e alinhava com a tese do Presidente do Supremo, aceitando, por inócuas ao processo, a destruição das respectivas gravações.

 

Por mim não esperava dessa figura outra posição que a tomada. A minha duvida metódica cada vez se avoluma mais quanto a esta democracia a que chegámos onde os partidos, e não ponho nenhum de lado neste momento, definem o que se pode e vem a saber publicamente, e a manipulação que o povo português, mal educado, mediocremente esclarecido, futebolisticamente treinador diplomado pelos jornais da especialidade, sofre por interesse daqueles.

 

Mas também não sei se será tão fácil assim a destruição arbitrária de meios de prova, sem aumento de descrédito sobre quem o faça. A contestação dessa destruição nos Passos Perdidos da Assembleia da República, redacções de jornais (onde muito mais se sabe do teor dessas gravações do que vem a público), a tal ponto que basta recordar a intervenção metafórica da presidente do PSD em plena Assembleia, para se presumir as pressões que o poder político socialista vai exercendo, em vez de explicar os altos preços da gasolina, os perdões das Estradas de Portugal, as nomeações dos seus serventuários de cartão e militância para cargos de administração pública, em relação aos consórcios construtores das auto-estradas nortenhas, as suas relações em relação às negociatas, não só de sucatas (vivo num concelho onde estas sempre foram predominantes) que, a troco de votos, dinheiro, percentagens, moradias, automóveis de luxo, se manifestam, de norte a sul do país, no poder central, regional e local, numa voracidade berlusconiana , que leva uma figura pública como Miguel de Sousa Tavares, a escrever, no citado Expresso, um artigo  intitulado As Más Companhias, donde, com a devida vénia transcrevo, como remate: «o fascínio com o grande capital e os grandes negócios (inspirados, promovidos, ou pagos pelo Estado) é a perdição do PS. Aos poucos, este PS tem vindo a copiar o modelo de gestão introduzido por Alberto João Jardim na Madeira: negócios privados com oportunidades e dinheiros públicos, em troca da solidariedade política para com o Governo. Um capitalismo batoteiro, com chancela «social», e disfarce de «interesse público».

 

Sem a menor dúvida, a política de Berlusconi anda à solta por aí, transformada em modelo nacional.

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