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Vive-se bem na Madeira

 

As viagens por nós efectuadas a esta parte do país foram sempre no verão ou no fim da primavera. Constatámos há dias que o mês de Novembro também é uma boa altura para visitar o arquipélago. O clima é quase perfeito e as temperaturas não se comparam com as do Continente, muito menos com as do Canadá. Para cúmulo, deve ser uma das regiões mais bonitas de Portugal.

 

Pouco depois da descoberta por João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira, em 1418, foram introduzidas na ilha as culturas da vinha e da cana-de-açúcar. No século XVII, dominava a produção de vinho e os canaviais já iam sendo abandonados por causa da concorrência brasileira.

 

Entretanto, alguém se deu conta que o vinho utilizado como lasto nos porões das caravelas, ao passar pelos mares tropicais, tornava-se mais denso e melhorava de sabor.

 

Até os leigos em enologia sabem que o “madeira” é do tipo generoso. Nos séculos XVIII e XIX, foi um dos preferidos no Império Britânico e na América. Ficou célebre ao ser servido no brinde à Declaração da Independência dos Estados Unidos. Era bebericado tanto pelas elites europeias como crioulas de todo o continente. De facto, ainda hoje é de bom-tom servi-lo em ocasiões especiais. Uma colega descendente de famílias emigradas da Índia para Trindade e Tobago presenteia os amigos com “madeira” durante as festas de fim de ano.

 

Trata-se de um produto multifacetado. Se há milhares de chefes que o utilizam na preparação de iguarias de alta gastronomia, a sua variedade também é apreciada pelos conhecedores. Comecemos pelo mais seco de todos, o sercial, que é tradicionalmente servido antes da entrada ou do prato principal; passemos em seguida ao verdelho que é meio-seco e pode acompanhar um gaspacho ou uma salada de caranguejo; o meio-doce chama-se boal e combina com queijos e pastéis de nata; e, por fim, vem o malvasia que concorda à perfeição com mousse de chocolate.

 

Para comer: cebolinhas de escabeche, milho frito, peixe espada preto preparado de diversas formas, carne em vinha de alhos, espetada e bolo de caco. Na estalagem de Ponta do Sol, recomendamos o “espada malandra”. Uma delícia.

 

Há vinte anos bem contados que não percorríamos o éden do Dr. Alberto João Jardim. Causou-nos admiração o inegável surto de progresso. A União Europeia tem muito a ver com a construção de uma óptima rede viária, de um grande número de tunéis, de uma série de marinas. Tão-pouco faltam instalações turísticas de elevada craveira.

 

Apesar do desenvolvimento económico, a Madeira continua a ser um magnífico destino para os amantes da natureza. A flora luxuriante é paradísiaca. Deparamos com uma pletora de palmeiras, bananeiras, gerânios, hibiscos, agapantos, hortênsias, aruncos, buganvílias e glicínias. Também é digna de menção a abundância de orquídeas, antúrios e esterlícias. Por cimos e vales, as veredas junto às levadas seduzem legiões de turistas que empreendem saudáveis caminhadas. Por certo que estes pequenos canais de irrigação, muitos deles multisseculares, constituem um atractivo ímpar no mercado europeu.

 

O Funchal não fica atrás das cidades continentais. A arquitectura é bela, os cafés e os restaurantes não são inferiores aos de Lisboa.  Conforme se ouve dizer, talvez a média seja superior à média alfacinha. E se a região não tem tantos museus como a antiga capital do império, possui outros encantos para as centenas de milhares de turistas.

 

Revimos Câmara dos Lobos. Que diferença das outras viagens. Apenas as cores garridas dos barcos de pesca se manteve. Nota-se um trabalho imenso de recuperação urbana. O mesmo na Ribeira Brava e na Ponta do Sol. A surpresa é idêntica na agreste costa norte. Vilarejos onde outrora a vida era bastante difícil são hoje locais onde estão presentes os confortos contemporâneos. Estamos a pensar em Porto Moniz e São Vicente.

 

Desde que, ainda na década de oitenta, ouvimos o Dr. Alberto João Jardim falar num colóquio organizado pela Universidade do New Hampshire, logo compreendemos que eram abismais as divergências no que toca à política. No entanto, seria aviltante aceitar todos os comentários depreciativos que muitos continentais, sobretudo os devotos do “engenheiro” e outros licenciados “à la minute”, fazem ao Presidente da Região Autónoma da Madeira.

 

Deve ser inveja pelo arquipélado ter atingido um dos melhores índices de vida da nação. Existe segurança, há limpeza e não faltam obras. Está a caminhar para a frente, enquanto que a quase totalidade do Continente cada vez está pior. E tudo isto sem o lambebotismo pacóvio que caracteriza a actualidade portuguesa. Não gostamos do estilo, mas entre o “eng.” Sócrates e o Dr. Alberto João, temos forçosamente de reconhecer que o povo não hesita quando é chamado às urnas.

 

Riam-se, riam-se! É preciso confessar que alguns políticos nacionais e locais são autênticos clones do presidente madeirense. Embora doutros partidos, utilizam métodos parecidos. Mas a verdade deve dizer-se, no domínio da política não lhe chegam aos calcanhares.

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