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Santiago e a Moirama

 

No século XII, os precursores do actual “marketing político” inventaram uma batalha que teria ocorrido em Clavijo, no recuado ano 844 da nossa era. Segundo esse mito, Ramiro I, de Leão e Astúrias, saiu vitorioso do combate com o fabuloso exército de Abdurrahman II (ou Abd al-Rahman), califa de Córdoba.

 

Não fosse a intervenção divina e as hostes cristãs teriam sido dizimadas. Diz a lenda que, na véspera da peleja, o rei sonhou com Santiago e ele ter-lhe-ia prometido interceder a favor dos leoneses e asturianos que começaram a gritar como desalmados: “Santiago! Santiago!”.

 

Logo ele aparecia no céu montado no célebre cavalo branco. Durante séculos, contou-se que só à conta do santo guerreiro foram 60.000 muçulmanos desta para melhor. Assim começou a Reconquista da Península Ibérica.

 

Isto aconteceu num território marcadamente periférico. No caminho para o promontório do “Finisterra”, o fim do mundo dessa época. Era ali que acabava a terra e começava o mar. Mais tarde, descobriu-se que para lá da linha do horizonte havia outro continente. Mas isso seria outra história.

 

Todo o Noroeste é bastante montanhoso e um pouco selvagem. As chuvas são abundantes e a costa apresenta-se recortada por inúmeras rias, baías e enseadas. Mesmo na actualidade, nem parece a Espanha. Não tem flamenco nem praças de touros. Tampouco é machista. Uma consulta da bibliografia etnográfica suporta a hipótese do matriarcado ter criado raízes por estas paragens. De facto, as mulheres sempre ocuparam lugares de poder e prestígio nas províncias do norte da península.

 

O que não é de estranhar, pois a cultura local reflecte a presença céltica há mais de dois mil anos. Na actualidade, as mulheres continuam a efectuar quaisquer trabalhos do campo e sempre aqui houve menos preconceitos contra as mães solteiras do que no resto de Espanha. Os mesmos traços culturais são evidentes nas crenças e nas tradições locais, sem esquecer a música e, sobretudo, as gaitas de foles.

 

Tanto na costa como no interior, a sucessão de pequenas aldeias dispostas em torno de antiquíssimas e humildes igrejas contrastam com o sul. Quiçá se trate do típico aconchego céltico, protegendo-se assim as pessoas da agressividade da natureza. Uma maneira de evitar que ventos e brumas não interfiram demasiado com a sobrevivência humana.

 

Se Frederico Garcia Lorca ficou famoso versejando sobre o verde da Andaluzia ressequida pelo sol meridional, na Galiza o verde não serve de mote aos trovadores. Na pátria de Rosalía de Castro, essa cor predomina nas florestas e nos prados, mas sobressaem os tons arroxeados das urzes e os das giestas dos montes.

 

Mas voltemos ao milagre de Clavijo. Os estudiosos do folclore afirmam que foi tudo inventado para justificar o pagamento de tributo à igreja de Compostela. Criando-se dessa forma o mito do “Matamoros”. Este, com o decorrer do tempo, transformou-se numa das traves mestras da unificação espanhola. Mesmo após 1492, quando da expulsão dos árabes e dos judeus, o mesmo padroeiro serviu para justificar as atrocidades cometidas na colonização do Novo Mundo. São incontáveis as barbaridades feitas aos índios em nome da Cristandade.

 

E ninguém pode esquecer que a catedral de Santiago é considerada um dos símbolos perenes do Ocidente Europeu. Foi uma espécie de Meca para qualquer devoto: reis e pedintes, rainhas e assassinos, vigaristas e cavaleiros transformavam-se em peregrinos em busca da salvação eterna. Fulcro da civilização, não só pela espiritualidade, mas também por ali se encontrarem diversos estilos de arte e arquitectura cristã.

 

Sobe-se a escadaria e, após a passagem da fachada barroca de 1738, não há a enganar. Os olhos deleitam-se com o Pórtico da Glória datado de 1188 e que outrora constituía parte da entrada. O seu autor, Mestre Mateo, esculpiu duzentas imagens que foram pintadas em cores vivas e em cujos vestígios ainda se podem identificar caras rosadas e vestimentas recatadas.

 

Que grandes conversas entre aquelas estátuas! Profetas, santos e apóstolos, falam uns com os outros há muitos séculos: João Baptista, São Marcos no canto esquerdo, São Lucas com o touro sobre os joelhos, se tratasse dum cachorrinho de estimação, enquanto que escreve com toda a calma o seu evangelho, Ester e Judite. Vinte anos de trabalho de Mestre Mateo. È uma das obras mais emblemáticas do estilo românico.

 

No cimo da coluna, está sentado Santiago que recebe os crentes. Numa mão tem o bordão de peregrino e na outra uma lista onde se pode ler “Misit me Dominus” (O Senhor me Enviou).

 

Mito ou facto, a verdade é que, sem a reconquista aos mouros apadrinhada pelo Santo, a Espanha e Portugal teriam tido outro percurso histórico. Embora com designações diferentes, sempre fomos governados por “califas” tanto no Al Andalus, como no Al Garb.

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