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“Finka Pé” trazem Cabo-Verde a Torres Novas

 

Encantaram e deslumbraram os presentes, no passado dia 7 de Novembro, no Café Concerto, com a sua alegria única e contagiante. Possuídas pelo empolgante ritmo do Batuque, as mulheres cabo-verdianas mostraram ao público torrejano a sua devoção por uma cultura quase esquecida e a sua determinação em continuar a transmitir essa tradição, que se revelou pela primeira vez ao mundo no século XVII. Contudo, as coisas não foram fáceis nos primórdios desta expressão, uma vez que “a dança do Batuque acabou por ser totalmente proibida, por ser considerada uma dança demasiado sensual e erótica”, conta Ângela Marques, um dos membros deste grupo cabo-verdiano. “O balançar do corpo da mulher e o abanar da coxa eram vistos como gestos muito eróticos”, conta. Ainda para mais, a expressão dos problemas vividos pelas mulheres que entoavam a música do Batuque era severamente criticada, pois os temas cantados falavam regularmente da distinção entre homens e mulheres, dos problemas com o governo e do desemprego.

 

Ultrapassados estes obstáculos, o Batuque reergueu-se com uma nova força e desde então que faz parte das vidas das mulheres cabo-verdianas imigrantes em Portugal. Para o grupo “Finka Pé”, em particular, tudo começou há 22 anos, com um grupo de amigas cabo-verdianas que haviam emigrado para Portugal e que viviam no bairro da Cova da Moura. “Estas mulheres reuniam-se ao final do dia e recordavam a tradição que haviam deixado na sua terra natal”, conta Ângela. Deste convívio entre amigas surgiu o grupo “Finka Pé”, e, desde então, a tradição cabo-verdiana tem sido fortemente aclamada em Portugal. O êxito não foi imediato pois vários eram os grupos de Batuque que se haviam formado nas imediações do bairro, fazendo das “Finka Pé” uma mera banalidade na altura. Contudo, como diz o ditado, “a união faz a força” e as “Finka Pé” conseguiram gerir os seus horários e as suas vidas de modo a conseguir manter vivo o grupo que haviam formado, enquanto os outros se deixaram vencer pelas incompatibilidades que foram surgindo. Tudo isto deu às “Finka Pé” a oportunidade de se mostrarem a Portugal como o maior grupo de Batuque de sempre, onde nenhum pilar da tradição cabo-verdiana era esquecido.

 

Hoje, o grupo já perdeu a conta ao número de convites que recebeu para actuar. “Há alturas, como a de agora, por exemplo, em que andamos muito sobrecarregadas com convites, mas aceitamos sempre tudo de bom grado”, conta Ângela. “Chega a haver vezes em que saímos do trabalho a correr, já com a roupa e as coisas do batuque nas mãos, para irmos para os espectáculos, e em que chegamos já muito tarde a casa, e os nossos filhos já estão a dormir porque os nossos maridos já lhes deram o jantar e já os deitaram”, confessa. Apesar de tudo, o Batuque é algo de que estas mulheres cabo-verdianas não abdicam, até porque, para elas, o Batuque é sobretudo uma terapia. “Lembro-me perfeitamente de a minha mãe sair de casa devastada, de ir para o Batuque e de voltar como uma pessoa completamente diferente. Com todos os problemas que ela tinha deveria estar de rastos, mas a verdade é que voltava do Batuque como uma pessoa cheia de força e muito mais disposta para a vida. Percebi que, por mais problemas que ela tivesse, por mais graves que eles fossem, voltava sempre melhor do Batuque. E então quis perceber porque é que isso acontecia, e hoje acabo por me sentir a prova viva de que o Batuque é, de facto, uma terapia, porque encontrei nele uma forma de me sentir mais próxima da minha mãe depois de ela falecer. Ao cantarmos as nossas angústias e alegrias, as nossas vivências, e ao transmitirmos com o corpo aquilo que nos vai na alma, sentimo-nos rejuvenescer. É incrível o efeito que o ritmo do Batuque tem em nós ”, conta Ângela.

 

Tristezas e alegrias, graças e desgraças, sonhos e medos, receios e esperanças foram entoados para o público torrejano, que viu no Batuque o modo como estas mulheres cabo-verdianas encaram a vida – sempre com um entusiasmo contagiante à flor da pele.

 

Depois de mais uma actuação, as “Finka Pé” regressaram a casa com uma nova força no corpo e na expectativa de que um dia possam voltar a Torres Novas para mostrar mais desta tradição que tantos encantou.

 

Margarida Cruz 

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