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Atrás das crises, outra crise vem

 

Se este país não está em crise, dentro da sua própria crise, inserido na crise económica mundial, eu não me chamo António. Já não é só o atraso, que já não acredito ser recuperável, ante uma Europa desigual, individualista, pouco propensa à solidariedade sem retribuição, para quem nunca deixámos de ser um local de turismo barato e de brandos costumes, subserviente como poucos, machista de língua, amaricado e medricas quando lhe apertam os calos. Aí se mexe a crise interna, dentro da crise global, que nos coloca, nas tabelas internacionais, num lugar bem mais próximo do terceiro mundo, do que, neste sonho europeu, onde nos descartámos do pouco que éramos, na agricultura, na indústria, a troco duns subsídios que, se se fizer um dia a história, deram para comprar jipes e investimentos em contas bancárias, formações profissionais fantasmas com lucros chorudos para empresas criadas para o efeito e de nula utilidade para os formandos.

 

Um corrupio de iniciativas que permitiram que a mentalidade portuguesa sucumbisse ao apelo da ganância, do enriquecimento fácil, do roubo mas faço, que encheu Portugal de norte a sul de grandes vias rodoviárias, as cidades de grandes investimentos imobiliários, os bancos de grandes fortunas, a população de impostos cada vez mais pesados, com o aumento desmedido do desemprego, miséria cada vez mais democrática, fazendo pobres onde há umas décadas, poucas, eram famílias com emprego, em casas arrendadas, a sonharem um mundo melhor para os seus filhos. O cimento, o vidro, o alcatrão, o lixo da sociedade de consumo, o trocar de automóvel, de casa, de telemóvel, de televisor, como outrora se não mudava de camisa, criaram, não um país, mas sociedades anónimas de interesses que, em ligação aberta com o poder político, do poder local ao central, monopolizaram a economia, a sociedade, a justiça, as leis, criaram um estatuto próprio, de invulnerabilidade, à custa do suborno, da ameaça, da chantagem, da cunha.

 

Chegou-se a um ponto tal que, se se vier para a rua gritar agarra que é ladrão, vêm logo uma mão cheia de gente afiançar que o ladrão era muito bonzinho, tinha pago os instrumentos da filarmónica, apoiara uma ambulância para os bombeiros locais, patrocinara de certeza absoluta o clube desportivo local. Afinal era um benfeitor, a quem a terrinha só devia favores, desde emprego aos necessitados, sopa dos pobres aos desempregados, distribuição de bens essenciais em dias precisos.

 

Quando leio que o Pavilhão Matias Pedro, na cidade, foi penhorado, e o mesmo Matias Pedro vem lamentar-se de que os torrejanos deixem chegar a coisa a este estado, é confundir a nuvem com Juno, porque a pergunta que o citado não faz é como se chegou a este descalabro, quem foram os seus causadores, qual o seu grau de responsabilidade, que medidas correctivas foram tomadas.

 

Os casos de corrupção que, a cada semana, vão surgindo nos media nacionais, são apenas, pressinto-o, a ponta de um icebergue, como o que afundou o Titanic. Mas, se vendem papel e dão lucro às televisões, os arguidos continuam impunemente a gozar as fortunas conseguidas à base da vigarice, os processos nunca mais chegam ao fim, e quando chegam, os tribunais levam décadas na sua resolução, ou arquivam-nos por terem, segundo a lei, prescrito por ultrapassarem os prazos, há algo que começa a tresandar a cheiro pior de que peixe podre.

 

Os políticos que temos vivem à margem disto – reflicta-se nas cerimónias da posse do novo governo, ministros e secretários, repare-se nas viaturas de luxo em que os ditos se transportavam, façam-se as contas de quanto vai custar em impostos às nossas bolsas, para se perceber que o país político não é o país real. A ferramenta necessária não é o Magalhães, mas a educação e a cultura, a recuperação da dignificação do ser humano, hoje transformado em simples número duma estatística, ainda por cima manipulada a interesse de quem manda.

 

Vivemos, não numa democracia política, mas numa partidocracia que distribui, entre si, os lugares, os empregos, as fortunas, os bens móveis e imóveis, os cargos, os negócios, os prémios e os castigos.

 

Não compreendo, nem aceito, que o povo, em nome do progresso (seja lá o que isso significa), aplauda a canga que lhe pesa. Há por aqui uma grande falta de psiquiatra…

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