A avaliação

 

Há pouco tempo escrevi, neste mesmo jornal, um artigo a elogiar o trabalho da ministra de Educação que deixou de o ser. Não retiro nem uma vírgula em relação a essa apreciação global. Em dezenas de anos foi a única titular deste departamento, talvez desde Veiga Simão, que definiu uma política com determinação e muita coragem, obtendo resultados, a meu ver, muito bons. E eu, mais uma vez o declaro, sou completamente insuspeito porque voto sempre contra toda a gente que encha a boca com a palavra socialismo porque, simplesmente, eu não o sou, nem nunca fui ou estive perto.

           

Foi a ministra exemplar em tudo? Claro que não. E na questão da avaliação dos professores esteve bem longe de o ser, enrodilhando-se numa enorme trapalhada burocrática que deu cabo da imagem dela, sem honra nem glória. E para isso não terá faltado a ajuda do secretário encarregado do assunto que demonstrou à saciedade não passar de uma daquelas espécies que sistematicamente deram cabo da educação em Portugal – os especialistas de educação – cujo expoente máximo é a antiga secretária de Estado Ana Benavente, na oposição ao próprio Partido por achar que o eduquês esteve na prateleira.

           

A necessidade de “avaliar” por métodos sofisticados e normalizados tem a ver, julgo eu, com a crescente tecnocracia das relações de trabalho e dos departamentos de pessoal, carregados de gente recém chegada de universidades manhosas, com cursos e cursos de “recursos humanos” e com a cabeça cheia de manuais de procedimentos semelhantes aos que acompanham os electrodomésticos. Claro que esses tecnocratas tem de aplicar cegamente o que aprenderam, contribuindo para centrar as empresas e instituições em si próprias e no seu próprio funcionamento, em vez de se concentrarem no produto que vendem ou disponibilizam. Tudo isto esquecendo, como é costume, que o mundo não começou hoje e que é óbvio que sempre houve “avaliação” das pessoas nos seus respectivos trabalhos, e que não é por não existir uma norma precisa de avaliação, ou um monte de fichas para preencher com patacoadas, que deixa de existir um julgamento pelas pessoas que connosco trabalham sobre as respectivas capacidades. Na verdade até, não há ninguém que não esteja permanentemente, mesmo sem ser especialista em recursos humanos, a fazer julgamentos sobre as atitudes e capacidades das pessoas com quem privamos, sejam eles subordinados ou chefes. Como também é verdade que ao fim de um tempo de trabalho, fica consolidada uma “imagem”, justa ou falsa, sobre cada um dos funcionários de um determinado universo de trabalho. E não é por se introduzir um método normalizado, cheio de fichas e requisitos, que essa “imagem”, ou esse julgamento, irá ser alterado.

           

A avaliação serve pois não para incentivar ou melhorar as capacidades dos trabalhadores mas sim, na pior interpretação, para justificar a azáfama dos departamentos de relações humanos, ou, na melhor interpretação, para desculpar, ou diluir em critérios tecnocratas, a dificuldade de escolher quem é promovido e quem marca passo, evitando assim a responsabilização resultante de escolhas que, naturalmente, para quem é preterido são sempre muito injustas. É por isto – por quem escolhe não querer causar danos e mal-estar no seu departamento – que quando a responsabilidade pública e primeira de um “avaliador” não estiver ela própria limitada por baias bem estritas, a tendência natural, muito humana e até inteligente, é de classificar toda a gente pela medida grande e, depois, discriminar em surdina os que considera melhor ou pior. Foi o que se passou anos e anos a fio na Função Pública e passar-se-á em qualquer organização, de tamanho pequeno ou médio, que não queira ter questiúnculas e competições absurdas entre os seus funcionários.

           

O método de classificar tudo pela medida grande exige porém, que seja bem claro que isso não significa que serão todos promovidos mas, apenas, que estão todos em condições mínimas de o serem. De modo que, se pensarmos nas escolas, muito mais importante do que a avaliação é a definição dos quadros das escolas pública e do orçamento que a suporta, deixando à própria escola a escolha, em surdina, sobre quem é promovido e quem o não é, dentro do quadro existente. A possibilidade da direcção das Escolas poderem tirar conclusões próprias em função das capacidades dos seus quadros e das circunstâncias em que actuam, é um passo enorme na responsabilização das escolas, estando elas em competição com outras escolas do mesmo nível e sob vigilância das Câmaras Municipais e dos pais dos alunos, para prevenir abusos e prepotências.

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