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Como sairemos disto?

 

Nos últimos tempos o universo escolar foi atravessado por algumas estrelas de altíssimo brilho que fascinaram muitos na sua ânsia de ignorância. Dessas estrelas assinalamos as aulas de substituição que muita satisfação trouxeram a encarregados de educação mas que nada acrescentaram a uma eficaz aprendizagem; o alargamento da escolaridade obrigatória (obrigatória, porquê?) que pode ser muito útil para ocupar os jovens neste tempo de falta de emprego; as novas oportunidades que não dão qualquer oportunidade mas deixam analfabeto quem já era analfabeto; a avaliação dos professores (finalmente os malandros foram apertados no laço!). Porém, esquecem-se aqueles que tanta consolação tiraram desta pisadela aos professores que ela é pedagogicamente inútil, porque não incide no que deveria incidir e, por ser simplesmente burocrática, não melhora a escola.

 

Por estes dias foram publicados os rankings das escolas que são uma espécie de tabela classificativa. Eles valem o que valem porque comparam o incomparável. Têm em consideração, apenas, o resultado de exames: ora nem todas as escolas têm o mesmo número de exames. Essa classificação nacional não considera variáveis determinantes, que devem ser consideradas na avaliação, como sejam o meio socio-económico, a interioridade…

 

Por que estão à frente no ranking as escolas privadas dos grandes meios urbanos? Essas escolas podem escolher os seus alunos. Os encarregados de educação pertencem a elites sociais e culturais. Nesses colégios valoriza-se o trabalho, exige-se disciplina, ensina-se o respeito para com os professores e os colegas.

 

Há um sentimento generalizado de que, apesar do alargamento do tempo escolar, as aprendizagens têm vindo a descer de nível. (Basta ler jornais diários, ouvir jornalistas da rádio e da televisão para verificarmos a que chegou o lamentoso tratamento da língua portuguesa). Na escola pública desvaloriza-se o trabalho e a aprendizagem de conteúdos significativos para a vida; desce o nível de exigência e de disciplina; acriançam-se as actividades; o entretenimento tomou conta da busca do conhecimento e o saber deu lugar à satisfação da vontade caprichosa da criança; reuniões, papeladas, projectos da pedagogia da treta não deixam que o professor se concentre no essencial. Há um clima de abatimento, uma situação de desgaste; os professores mais experientes, e que podem sair, não resistem a este clima de sufocação e vão-se embora.

 

Demorará muito tempo a reparar este assassinato da escola, transformada em lugar de ocupação dos mais novos e não centrada em actividades de construção do conhecimento. Vejamos: Quem tem medo que os jovens sejam habituados a pensar? Pois temos assistido gradualmente à desvalorização do estudo da filosofia; é residual o lugar do latim (e temos uma língua latina ); reduz-se o ensino da nossa literatura e dos nossos escritores. Esquecemo-nos de uma formação humanística que vem de séculos, substituída de forma excessiva e bacoca por uma atenção a tecnologias que satisfazem modas.

 

Os problemas do país, ao contrário do discurso oficial, não é económico nas suas raízes, é cultural e de desenvolvimento humano. Mas, enfim, atravessemos a noite.

 

PS. Congratulamo-nos com o lugar muito honroso que ocupam no ranking as escolas de Torres Novas. É significativo que, num ano escolar tão conturbado, as nossas escolas tenham conseguido excelente resultado.   

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