Home > Colaboradores > Victor Pereira da Rosa > A Paranóia da Gripe

A Paranóia da Gripe

 

Quem é que ainda não ouviu falar do H1N1, o vírus que se transformou na principal preocupação mundial? As guerras, a pobreza, a corrupção, os desastres naturais passaram para segundo ou terceiro plano.

 

É difícil escapar. Ainda esta manhã, lemos um pertinente comentário de Alberto Gonçalves na sua coluna “Dias Contados” (“DN”, 11.Out.2009): “Enquanto Luiz Felipe Scolari é requisitado em prol da campanha de vacinação, o bastonário da Ordem dos Médicos tenta evidenciar o “excesso de alarme” em volta da gripe A, que considera “uma doença banal e pouco letal”. O dr. Pedro Nunes chegou um bocadinho atrasado. A acreditar no “Expresso”, para o bem e para o mal, os receios do H1N1 já alteraram os hábitos da população. Por um lado, lavamos as mãos com frequência; por outro, evitamos beijinhos e apertos de mão. Tradução: graças ao vírus, deixámos de ser um país de sebentos para nos tornarmos um país de malcriados. O mérito da evolução é discutível.”

 

Hoje em dia, uma notícia que atraia a atenção deve estar relacionada com a infecção de H1N1. Muito em breve, os governantes de países continuamente em crise, como é o nosso caso, afirmarão que qualquer problema resultante da respectiva incompetência é causado pela gripe. As indústrias abrem falência e o desemprego aumenta? A culpa é da gripe. As escolas estão num caos e os estudantes não aprendem nada? A culpa é da gripe. Os tribunais não funcionam e a insegurança generalizou-se? A culpa é da gripe. As câmaras continuam abarrotadas de funcionários ineptos que não dão conta do recado? A culpa é da gripe.

 

 

Esquecem-se que as gripes sempre fizeram parte integrante da mudança de estação. Com a chegada do outono, nunca falham. Não haveria tanta paranóia se não andassem por aí a atemorizar o Zé Povinho. Evite-se pois a referência H1N1 para atenuar a histeria colectiva.

 

Talvez se trate de uma perturbação do foro psicológico. Há imensa gente susceptível destes desarranjos. Confirmação feita pelos dados da Organização Mundial da Saúde e por muitos responsáveis pela higiene mental em Portugal. Leia-se, por exemplo, um artigo da LUSA publicado no “Público” (9.Out.2009) e cujo título diz tudo: “Todos os anos 15% dos portugueses desenvolvem uma doença psiquiátrica”. É um facto: vivemos num país do 8 ou 80. A bipolaridade é atávica no nosso povo.

 

A qualquer momento, ele vai da lavagem esporádica das mãos para a obsessão com uma higiene doentia. Que se imponha uma determinada prudência está certo, mas ninguém se deve exceder. Há que encontrar a justa medida, visto que, até ver, a taxa de mortalidade desta estirpe de vírus não tem ultrapassado a média.

 

Quem beneficia ─ e bem! ─ com a paranóia generalizada são os grandes laboratórios farmacêuticos e os meios de comunicação social.

 

Uma pessoa não pode tossir, assoar o nariz ou ter uma febrezita sem ser olhada de revés, como se constituísse uma condenação à morte da comunidade. Se for ao hospital, arrisca ficar de quarentena até as análises provarem que foi um falso alarme.

 

É patético. A gripe normal victimiza anualmente milhares de cidadãos sem que a tenham baptizado de epidemia. Claro que as crianças, os idosos e as pessoas debilitadas por doenças crónicas e respiratórias devem ser vacinadas. É óbvio que são mais vulneráveis a estes ataques sazonais da natureza. Mas daí a chamarem-lhe uma pandemia…

 

A vacina está prestes a ser distribuída. Um fármaco “milagroso” que vai imunizar a nação. Vacina mal testada, cujos efeitos secundários podem ser letais e uma gripe A que tem muito que se lhe diga, com uma campanha que serve para tudo menos para esclarecer. Há autoridades que andam a amedrontar a população.

 

Não é possível fechar os olhos à proliferação de anúncios, panfletos e cartazes ensinando a desinfectar as mãos e como evitar a propagação da doença. Estão por todo o lado.

 

Ana Jorge, responsável pelo Ministério da Saúde que tanto gosta de sacudir a água do capote, vem agora decidir que: “Além dos profissionais de saúde e das grávidas com patologia, os profissionais que desempenham funções essenciais são considerados como prioritários para serem vacinados com as primeiras quarenta e nove mil doses e que, entre estes, se encontram funcionários de empresas que fornecem serviços como gás, electricidade, comunicações, segurança ou saneamento.”

Que grande novidade! Há anos que Portugal e outros países fazem o mesmo em cada outono… para a gripe comum. Há mais de quinze anos que, sem carácter especial, levamos uma injecçãozinha no braço para esse efeito.

Morrer por falta de vacina ou morrer por causa dela, venha o diabo e escolha. Na expectativa de outras “injecções” da televisão, da rádio e dos jornais, vem a propósito erguer a taça e fazer uma saúde a todos. De preferência com vinho novo e castanhas assadas à antiga portuguesa!

Deixe-nos o seu comentário pelo facebook