O Talho Humano

 

Há um facto que sempre me inquieta cada vez que estou em alguns espaços públicos e ali procuro algum jornal para ler: quase sempre o jornal da casa recorre a uma forma populista para dar notícias, aquelas que mais facilmente tocam as pessoas. São os casos de polícia, insegurança, saúde, religião, etc. Continuando a folhear o jornal, chego à secção de classificados, onde irremediavelmente estão várias páginas de anúncios ligados à prostituição.

 

Estamos em 2009. Não podemos negar ou esquecer a existência dessa chaga social. Mas hoje, colocar de forma tão escancarada essa promoção, parece-me fora de tempo e de moda. Recorre-se a anúncios com fotos tiradas de diferentes ângulos, em que as e os prostitutos dão a cara e o corpo à vista de quem queira apreciar, completando depois com outros atributos pessoais que se calcula, sejam capazes de atrair a clientela: “bumbum macio”, “peito XXL”,”1ª vez”, “chinesas”, “mulatas”, “louras e morenas”, “boca gulosa”, “garganta funda”, peludas, viris, etc., etc.

 

A coisa mais parecida que me faz lembrar este tipo de publicação, é um catálogo de carros, ou produtos electrónicos, vinhos ou…, animais! Mas pensando mais um pouco sobre a oferta destes serviços, posso concluir que comparativamente, estes anúncios que se referem à prostituição, são os mais parciais e incompletos, não dando informação complementar sobre o “produto oferecido”, do tipo: garantias, período de experiência, personalidade, referências familiares, saúde. Ficamos assim perante um produto reduzido à carne, como se de um talho se tratasse, onde se oferecem partes da carcaça humana com a prostituta a apresentar-se às mãos de um cliente que paga para se deleitar com aquela peça. Diríamos, como quem vai ao talho e compra uma porção de bife da vazia, costeletas, ou lombo…!

 

E o leitor do jornal, ainda que por vezes de modo não premeditado, é também apanhado como consumidor desta humilhação gritante da condição humana, ao comprar ou apenas folhear esse tipo de jornais. Pode-se dizer sempre que temos de ser tolerantes, passando ao lado dessas partes de jornal que menos nos interessam, porque não vamos mudar nada e uma atitude obscurantista ou moralista é castradora da escolha livre. Mas teremos nós consciência dos dramas humanos que estão por detrás dos caminhos que conduzem alguém a uma vida de prostituição? Temos a noção de que na maioria dos casos estamos a alimentar redes de crime organizado de escravatura humana? Permitimo-nos estas condutas e depois admiramo-nos das escolhas e da poluição do nosso mundo, da nossa sociedade.

 

Nesta atitude alienada e alienante, acabamos por levar para casa, para os nossos ambientes familiares estas publicações, sem nos apercebermos que às pessoas a quem mais amamos estamos a fornecer conteúdos que comprometem os valores que temos intenção de transmitir com uma educação responsável, banalizando a prostituição como algo normal, até aceitável. Neste alinhamento cultural, podemos desculpar-nos que são apenas os outros e essas escolhas não servem para nós. Mas se compramos e levamos para casa esses produtos…. Ou achamos que somos cidadãos de uma casta superior…?

 

Quando ouço dizer por toda a parte que esta é a profissão mais velha do mundo, como que a legitimar a sua existência, lembro-me sempre da referência judaico-cristã, aos jardins do éden: no fim o Criador, vendo tudo o que existia, procurou o Homem e tornou-o responsável por tomar conta do jardim, dando-lhe uma ordem. Foi aí que surgiu a primeira profissão da história humana: o jardineiro!

 

O Homem só se realiza quando encontra a sua alteridade, isto é: o EU só o é na relação com o OUTRO e através desse envolvimento tornam-se um NÓS. Conjugando a expressão de Gandhi, “ não sou capaz de te ferir sem fazer mal a mim mesmo”, com aquela expressão popular bastante acertada “diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és”, percebe-se que deveríamos ser mais criteriosos no modo como fazemos as nossas escolhas ou opções de leitura. Na nossa relação com o mundo dos outros, não pode haver personalidades subjugadas, hierarquias de dignidades, como acontece no caso da prostituição.

 

Será que não há nesta sociedade movimento de cidadãos ou consumidores, capazes de querer bater-se por lutar contra esta forma de comunicação que é tão humilhante e desprestigiante da condição humana? Não tem a ERC – Entidade Reguladora para a Comunicação Social nada a objectar nesta matéria?

 

Numa lógica bastante actual de Ecologia Humana, é incoerente temer pelo bem-estar e saúde do planeta Terra e de todo o universo e depois deixar à mercê das emoções o comportamento do ser humano, enquanto espécie que integra essa mesma natureza.

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