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O desemprego e o resto

 

Dói olhar para o mundo do trabalho e ver como o número de desempregados cresce, como há tanto salário em atraso ou o vencimento a que se tem direito não é pago. Todos os dias encerram empresas, muitas despedem definitiva ou temporariamente. Há situações dramáticas de pessoas que não têm meios para alimentar, educar os filhos e cumprir com encargos assumidos.

           

O trabalho é uma forma de realização humana, mas dói ver como ele se transforma numa realidade desumanizada. Não estamos perante uma fatalidade mas esta situação nasce de um sistema socio-económico injusto e desigualitário.

           

O número de desempregados ronda os quinhentos mil. Caminha-se para uma perigosa situação de desequilíbrio social. Mas esta situação deveria ainda inquietar-nos mais se considerarmos que muitos homens e mulheres têm apenas trabalho precário ou um salário que mal dá para a sobrevivência. Salários de trezentos, de quinhentos euros não permitem organizar um projecto de vida, nem realizar uma vida humana. Estamos perante a situação dos antigos escravos a quem só era dado o suficiente para sobreviver para continuar a trabalhar. Mas continuamos a proclamar, sem nenhuma vergonha, que a democracia é o regime da igualdade de oportunidades. A situação, tão injusta, é a negação da mesma democracia. Não nos devemos preocupar com tudo isto, alarmar até?

           

Neste quadro é também preocupante que o número de desempregados com licenciatura não pare de aumentar. Criam-se ilusões aos jovens dizendo-lhes que é bom valorizarem-se pelo estudo, pela investigação e, depois cortam-se-lhes as asas porque não há para eles entrada no mundo do trabalho. Nem há adequação entre as habilitações que adquirirem e as tarefas que desempenham. Grave, ainda, é terem sido criados cursos profissionais que não profissionalizam nada.

           

A crise profunda que hoje vivemos, na realidade, vem de há muito, apenas estava oculta nas artimanhas do sistema financeiro para sua própria sobrevivência. Quando os excessos praticados levaram a que não se pudesse esconder a situação por mais tempo o monstro apareceu em toda a sua obscenidade. Mas não sairemos da crise se continuarmos a privilegiar o capital em relação às pessoas. A crise é, sobretudo, uma crise humana.

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