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Desabafos dum gato

 

Olá. Sou um jovem gato de tez branca como a neve. Tenho olhos azuis, capazes de enlouquecer qualquer gatinha que se atravesse no meu caminho. Sou meigo, carinhoso e um bom garfo. Bem, também não como tudo o que me dão. O que mais gosto é de um excelente paté de atum que as minhas novas amigas me oferecem de vez em quando.

           

Sinto-me em forma, porque sou bem tratado, desde o dia em que entrei na vida delas. Ao princípio a mais velha expulsava-me com uma vassoura, sem nunca me magoar. Eu entendia, porque, eu era um estranho, que entrava na sua vida sem bater á porta. Mas, eu fui resistindo e quando ela ralhava comigo por eu andar a escavar os vasos de flores do seu quintal, eu baixava o olhar em sinal de arrependimento. Depois roçava o meu longo rabo pelas pernas dela e dava uma cambalhota. Ela ria-se e comentava com a vizinha do lado que era só o que mais lhe faltava, aturar um bicho vindo do nada. Lentamente, aparecia mais vezes, com fome e miava. Ela dava-me restos de comida, mas eu não gostava muito. Se calhar sou esquisito.

           

Um belo dia colocaram num pratinho, 3 qualidades de alimentos e aí comi aquele belo repasto, deitando-me de seguida no tapete, junto à porta da marquise.  Fui ficando e agora frequento o quintal delas várias vezes ao dia. Nunca pernoito lá. Um gato também tem os seus segredos. A minha amiga mais nova deu-me um novo nome: Caramelo! Por vezes ando louco e entro sem elas verem pela casa adentro. Faço patinagem artística no chão escorregadio. Andam elas num frenesim danado a chamarem-me e eu a brincar alegremente. Ainda sou jovem, é normal que faça travessuras.

           

Outro dia conheci a Alzira. Não é a minha namorada, mas ela apareceu no quintal das minhas amigas. A pobre contou-me que tem filhos pequenos para alimentar e por isso desceu o monte e veio até aqui. Algumas vezes aparece triste, porque vê algumas vassouras acertarem nos seus filhinhos. Não os querem lá, porque andam a brincar nos seus quintais. Coitadinhos deles! Pergunto-me: “ Porque é que alguns humanos nos tratam tão mal? Também gostavam que maltratassem os seus animais de estimação, a pontapé, ou que os matassem com veneno? “ Sinceramente, não entendo certos humanos.

           

Nesta rua que frequento também existem cães. Gosto de brincar com uma cadela que teve sorte e foi recolhida por bons humanos quando nasceu. Damo-nos bem um com o outro e ela quando apanha o portão aberto até vem comer a minha comida. Não me importo. Mais para baixo vive um cão bonito. Ele anda cheio de carraças. E esses bichos sugam-lhe o sangue todo. Tenho pena de o ver cada vez pior, encostado a um muro qualquer, triste e pesaroso. Eu também às vezes, apanho carraças, mas felizmente tenho sempre alguém que as tira. Será que o humano que o tem, não pode tirar uma hora da sua vida, para tratar do cão dele?

           

Na minha curta vida já vi muita coisa; já vi humanos a abandonarem os seus animais após uma caçada, ou, uma ida para férias; já vi gatinhos mortos; já vi animais espancados; já vi de tudo um pouco. Por isso, considero-me um gato com sorte. Não tenho donos certos, mas os quintais que frequento, sinto que me aceitam. Não faço mal a ninguém. Aos domingos sou o ponto atractivo para as crianças. Pegam-me ao colo, dão-me comer e beber, brincam comigo e eu rebolo, feliz.

           

Apelo às pessoas para não abandonarem os seus animais de estimação e não maltratarem os que não são seus. Sabem o que acontece a um animal de estimação quando os donos os deixam de lado, os desprezam? O animal pura e simplesmente morre de saudades. Pensem nos meus desabafos caros humanos!

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