Mais Livros

 

Felizmente está a nascer o hábito de se publicar memórias, diários e biografias, género literário de que gosto imenso e de que sou um leitor quase compulsivo porque o julgo do maior interesse para a compreensão do mundo em que vivemos, e de nós próprios, pois que a história é feita pelos homens e, sendo assim, tem o maior interesse saber o que é que os motiva e porquê.

 

Só nos últimos meses foram publicados, e eu li, três livros destes: – Nuno Álvares Pereira de Jaime Nogueira Pinto; O Menino o Homem e o Rio de Manuel Aurora; e Casas Contadas de Leonor Xavier.

 

O primeiro, Nuno Álvares Pereira, é um livro fantástico e importantíssimo para os portugueses porque, já que parece que deixou de se ensinar na escola o significado de Aljubarrota, ao menos que haja algum documento acessível que nos ensine, explique e enquadre o nosso maior herói e Santo. E note-se que Aljubarrota não é pouca coisa: – é um dos momentos cruciais, de que nos saímos bem muito graças a D. Nuno Álvares Pereira, da nossa história e da história da nossa inacreditável independência. O livro está muito bem escrito e faz muito bem ao orgulho de ser português. Jaime Nogueira Pinto, à semelhança do que já tinha feito com o livro que escreveu sobre Salazar, não se limita a iluminar a vida e os feitos do retratado: – enquadra-o no seu tempo, explica as influências que o moldaram, enfim, dá a verdadeira dimensão da personagem.

           

Seria interessantíssimo que o autor, que com outro livro igualmente fantástico – “Jogos Africanos” – que é um livro de memórias, que o autor, dizia, se atirasse a uma história da África colonial comparada que faz uma falta imensa: – será que o colonialismo português foi de segunda, comparado com o inglês e o francês? E o que é que distingue, passados anos sobre o fim da era colonial, os Países que sofreram essas diferentes colonizações? Só Jaime Nogueira Pinto, a meu ver, está habilitado a esta tarefa: pela experiência africana, pela vastíssima cultura e pelo método de abordagem das questões.

           

Manuel Aurora, que viveu dois anos em Torres Novas onde lhe nasceu uma das filhas, não é um escritor consagrado, nem um professor, intelectual ou político destacado. É ele próprio, filho de uma família muito antiga e distinta do Norte, e teve uma vida mais ou menos igual a de todos os do seu meio e condição. Poderia escrever um livro muito bom sobre essa vida? O que é facto é que o fez: – O Menino, o Homem e o Rio. É um livro muito bem escrito, que se lê sem poder parar, com páginas absolutamente sublimes, que nos comovem até às lágrimas, que documentam a vida de um homem bom, do nosso tempo, adulto no 25 de Abril, da classe alta, educado como tal, sabendo conduzir carros de bois e relacionar-se com quem quer que seja, com simpatia e sem arrogâncias, mas convicto dos seus valores de sempre … não é fácil!

           

Passando igualmente adulta o 25 de Abril e emigrando e retornando do Brasil, no mesmo tempo de Manuel Aurora, Leonor Xavier compõe um retrato vivo e inteligente de uma vida inquieta à procura de estabilidade própria, que as condições emocionais familiares dificultam. Curiosamente o livro torna-se menos interessante depois do regresso a Portugal, porque passa a ser uma espécie de reportagem das viagens de regresso ao Brasil e dos encontros com os inúmeros amigos aí deixados, pormenorizadamente referidos. Mas esse facto não diminui o interesse pela história da evolução pessoal de uma mente fechada a uma completamente aberta, isto é, a história do produto de uma educação feita de repressão familiar, como a própria confessa, de antes do 25 de Abril, destinada a uma menina com posses de Lisboa (educação essa igualmente descrita no livro Bilhete de Identidade de Filomena Mónica), em que o resultado principal é o desejo de liberdade e de fim do sufoco. No caso de Leonor Xavier a aragem chega pelo casamento e pela alegria e os costumes do povo brasileiro. Parece que se observa aqui a regra geral de algum exagero quando a transição de um ponto ao outro é demasiado rápida porque Leonor Xavier reclama para ela a liberdade de perguntar, inquirir e falar de tudo o que lhe passe pela cabeça esquecendo o direito absolutamente legítimo de não ser inquirido com perguntas julgadas impertinentes, salvo licença prévia, nomeadamente no domínio da vida privada das pessoas, ou o direito de não ouvir coisas que incomodem a generalidade dos presentes. Não creio porém que ataque este último privilégio do comum dos mortais, dada a opinião generalizadíssima dos amigos dela que a julgam muito boa pessoa, divertida e amiga do seu amigo.

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