Home > Colaboradores > Carlos Borges Simão > Bacocos, Totós e Pacóvios

Bacocos, Totós e Pacóvios

 

Que este país já não é o que era e muito menos o que foi, toda a gente o pode verificar. Que seja para pior ou para melhor, as opiniões dividem-se.

 

Não me parece porém discutível o amor que, desde criança se arraigou em todos nós, ao nosso torrão natal. Primeiro ao pequeno país constituído pela casa e pela paisagem onde nascemos e, mais tarde, quando crescemos, o amor a uma nação e a uma nacionalidade. Foi isso que sucedeu comigo e suponho que com a maioria dos meus irmãos portugueses. A nossa História está repleta de portugueses que todos admiramos e como dizia Camões: «aqueles que por obras valorosas se vão da lei da morte libertando». Naquela época e agora orgulhamo-nos de grandes escritores, cientistas, poetas e santos.

 

Mas o tempo que tudo vai moendo, que tudo vai transformando e corroendo, se encarrega também de destruir aquilo que julgávamos indestrutivelmente adquirido.

 

E é aqui que entroncam dois conceitos tão debatidos e ideologicamente esfacelados: patriotismo e nacionalismo. A mim pouco me interessa que me chamem nacionalista ou patriota porque eu sei o que sinto por este país e por esta nação onde nasci e que me habituei a amar. E não é por ser português que não respeito as outras nacionalidades e os outros povos. Os portugueses sempre foram universalistas.

 

Ora há por aí uns senhores, alguns dos quais até admiro, que a respeito da União Europeia, se vão aos arames porque alguém tem orgulho de um português estar à frente da Comissão Europeia. Pelos vistos foi escolhido e algumas qualidades deve ter. Mas alguns desses senhores acham que somos bacocos, totós ou pacóvios pelo facto de sentirmos um certo orgulho porque um português preside à Comissão Europeia. Porquê? Que um Dr. Mário Soares destile uns certos remoque a Durão Barroso, até se compreende. A dor de cotovelo custa muito a curar. Ele nunca foi escolhido para qualquer cargo internacional e ainda bem. Agora que outros insultem os portugueses que se orgulham de um português presidir à Comissão Europeia, é que eu acho detestável e incompreensível. O prémio Nobel da Literatura, José Saramago, o Dr. Sampaio, o Engenheiro Guterres não serão pessoas intocáveis e sem defeitos, no entanto nós temos orgulho em que eles sejam portugueses e sejam internacionalmente reconhecidos. Infelizmente, o facto de um português não ter uma família ilustre, também influencia o apreço que nos merece, mesmo sendo um grande homem ou uma grande mulher. Se, pelo contrário, é filho de alguém poderoso pela fortuna ou pelo renome dos avós ou dos pais, aí já é considerado.

 

Talvez estejamos a atravessar a pior crise de valores. El-rei dinheiro tudo compra como comprou em 1580, muitos nobres, quando nos rendemos a Espanha. E que foram os conjurados de 1640? Patriotas? Nacionalistas? Eu não sei, mas sei que a esperança de continuarmos portugueses foi superior à ameaça de tudo perderem. E os de 1974? O que foram? Pobres de nós quando as ideologias calcarem aos pés valores que nos definem como homens e como portugueses. Eu quero ser bacoco porque afirmo com muito orgulho que sou português, gosto de o ser e gosto de ver portugueses internacionalmente bem colocados pelas suas qualidades.

Deixe-nos o seu comentário pelo facebook