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Lay-off na Fiação e Tecidos

Há cerca de um mês, um dos colaboradores deste jornal foi abordado por um casal de espanhóis na estação de comboios de Riachos. Tinham acabado de chegar de Lisboa e pretendiam ir até Torres Novas, questionando sobre a distância até à cidade. Sendo-lhes oferecida boleia, foram contando durante o caminho o porquê da sua viagem. Este casal de meia-idade, oriundo de Barcelona, veio passar as suas férias a Lisboa. Contudo ter-lhes-á sido dito que era a Torres Novas que se deveriam dirigir afim de encontrar algo que procuravam: “Turcos. Os melhores”. Portanto, estes catalães vieram à aventura, de comboio até Riachos, à procura da Companhia Nacional de Fiação e Tecidos de Torres Novas, onde queriam comprar toalhas. Naturalmente foram levados até à própria loja da CTN, onde puderam fazer as suas compras.

 

Serve este episódio de introdução. Como noticiado na última edição, desde o passado dia 8 de Junho que a Fiação e Tecidos de Torres Novas se encontra em lay-off, estando o seu termo previsto para 6 de Dezembro. Arrastada pela grave crise que vem encerrando numerosas indústrias pela Europa, também esta empresa, a laborar desde 1845, vê a sua viabilidade posta em causa face à acentuada quebra nas encomendas. Neste caso, a CTN assume uma quebra de 50% face às encomendas de apenas há seis meses atrás.

 

Muitos recordarão ainda uma outra fase na vida da Companhia. Bastará recuar até finais da década de 70, quando a fábrica conhecia o seu último pico de produção. Mantinha ainda a fiação de algodão e aumentava o número de efectivos. Em 1980 a fábrica contava com cerca de 800 trabalhadores, número que não mais se repetiria, sendo que em 2003 já apenas contava com cerca de 250. A exportação tornou-se a sua principal vocação. Até há pouco tempo a CTN vinha exportando entre 70% a 80% de toda a sua produção, mantendo clientes como o El Corte Inglés, a francesa Monoprix, a eslovena Máxima, entre outros na Alemanha ou até na Rússia. Encomendas asseguradas pelos actuais 150 funcionários que integram a empresa. Contudo, a actual crise põe em causa esta continuidade, uma vez que a quebra no consumo leva a que os principais clientes da Companhia suspendam as suas encomendas. É o que está a suceder de momento. A CTN não tem encomendas que sustentem os actuais postos de trabalho.

 

“O Almonda” procurou compreender, junto da Administração e da Comissão Intersindical, como se constituiu esta conjuntura que, em momentos de crise, coloca o sector têxtil como primeira vítima. Assim, apresentamos os depoimentos prestados pelo Presidente da Administração da CTN, Adolfo de Lima Mayer, do Administrador e responsável pela produção, Jorge Correia, bem como de Joaquim Mendes António, membro da Comissão Intersindical deste sector.   

 

 

 

Almonda – Alguma vez encontrou a Fábrica tão mal como actualmente?

 

Lima Mayer – Não. Nunca esteve tão mal de encomendas como está hoje em dia.

 

Alm – Como explica a conjuntura que cria este problema?

 

LM – Com as importações dos países chamados “de mão-de-obra barata”. Há um apoio generalizado em Portugal à criação de supermercados. Basta ver a proliferação de grandes superfícies que existe em Torres Novas. A cidade tem cerca de dez mil habitantes e creio que terá pelo menos 10 supermercados. Isto parece-me perfeitamente anormal e vem originando o desaparecimento total do pequeno comércio e até o consequente abandono e degradação das casas no centro da cidade. Ora, os supermercados conseguiram fazer isto espremendo os preços dos fornecedores, que poderíamos ter sido nós – e fomos durante muito tempo – e agora espremem os preços ainda mais comprando na China, na Índia, Paquistão, etc. Ora, dentro de algum tempo, um ano ou dois, o consumidor comprará tudo mais barato… mas não sei se terá emprego para ter com que comprar alguma coisa. A isto, que parece um contra-senso, chama-se Mundialização, e não sei se algum destes países da Europa controlou este efeito quando começou a proteger este tipo de grandes superfícies. Superfícies que proliferam vendendo a preços baixos, sim, mas destruindo o emprego dos produtores nacionais e europeus.

 

Alm – Mas essas grandes superfícies só compram à Ásia?

 

LM – Não, também nos compram a nós, mas quando o fazem é por um preço de tal maneira reduzido que acaba por não dar qualquer margem de lucro, é só pelo volume. Fora isso compram lá fora, mais barato. E não há nada que as impeça! Por outro lado, veja-se ainda que a Europa foi a última das grandes áreas financeiras do mundo a baixar as taxas de juro. O Japão tem taxa zero, a América quase. Ora, quem tenha dinheiro vai preferir comprar moedas que lhe dêem o maior rendimento possível. Isso originou uma inflação do Euro, a moeda mais rentável para quem tinha dinheiro, e a desvalorização de moedas como o dólar, o iene, etc. Isto torna mais barata a importação para nós, mas mais destrutivo é para quem produz em euros.

 

Alm – A responsabilidade recai então na completa abertura aos mercados do Oriente?

 

LM – Foi uma medida que a Europa inteira tomou, possivelmente de carácter mais político, porque isso permitiria aos países com indústrias mais avançadas, como a Alemanha, vender os seus Mercedes e BMW’s na China, e à França os seus champanhes, perfumes, etc. Mas isso permitiu a destruição de tudo o que antes era produzido na Europa e passou a ser exportado para cá. Especialmente a nós, que não temos nenhuma indústria de ponta. A questão é que a origem dos preços desses produtos é uma mão-de-obra barata, sem protecção social, sem férias, sem serviços de saúde ou subsídios de qualquer tipo, que são direitos que os trabalhadores europeus têm, e é evidente que isso tem custos. Por outro lado as pessoas na Europa ganham muito mais, onde tudo é também mais caro. Claro que quem não tem direitos nenhuns e ganha mal, constitui mão-de-obra barata, explorada. Ora, se a Europa e a América, onde existem regras e direitos, disserem a esses países que continuarão a importar, mas apenas se todas estas condições se verificarem também aí, vai ver que estes problemas param ao fim de pouco tempo.

 

Jorge Correia – Pior, como aumentam a sua margem de lucro, vêm à Europa comprar máquinas tão boas ou melhores que as nossas e já conseguem produzir com uma qualidade idêntica. O que não está certo nisto tudo é que apareçam no mercado onde nós estamos a vender, empresas concorrentes onde esses direitos não existem, sem horários de trabalho por exemplo. Lá não há 40 horas de trabalho, e se a pessoa adoecer vai para casa e fica sem trabalho porque há logo quem a substitua! Depois não têm comissões de trabalhadores, não há protecção do ambiente, ninguém controla as emissões gasosas, ou o que acontece aos afluentes das tinturatias, ninguém se preocupa em saber se há barulho, nada. Portanto tudo isto são custos que as empresas cá têm de suportar, e bem, mas que, no mesmo mercado, deveriam ser para todos. Como esses países não têm esses cuidados, deveria ser-lhes imposta uma sobrecarga sobre os seus preços, que pudesse equilibrar os custos que as empresas europeias são obrigadas a ter. 

 

LM – Antigamente havia um mecanismo corrector destes defeitos que eram os “direitos”. Criavam um imposto sobre os produtos que vinham desses países de fora da Europa, e isso traduzia-se como que numa defesa sobre essas diferenças. Ora, desde os anos 90 esses “direitos” foram sendo gradualmente retirados pela União Europeia e essa defesa desapareceu.

 

JC – É que nessa altura, mesmo nós, para exportarmos dentro da própria Europa, tínhamos quotas de exportação que eram atribuídas a cada país. Podia-se chegar ao fim dessa quota numa determinada altura do ano, e a partir daí não se poderia exportar mais a não ser que se pagasse uma taxa suplementar. A determina altura essas regras foram abolidas dentro da Europa. Mas isso percebe-se, tendo em conta que todos tinham de cumprir as mesmas regras. O pior é quando essas regras caíram para mercados completamente desajustados ao nosso.

 

LM – O mercado está completamente livre. E o pior é que os chineses fazem dumping até no próprio custo dos transportes. Não sei se o governo chinês, de certa maneira, não cobrirá os custos dos navios, para facilitar que a indústria chinesa consiga cá por os seus produtos ainda mais baratos do que os outros que, como nós, pagam os seus custos de transporte.      

 

Alm – Mas parte-se do princípio que, ao se desenvolverem, estes países populosos, como a China ou a Índia, venham a ser novos mercados para o que se produz ou venha a produzir na Europa…

 

LM – Quando eles tiverem assegurada a defesa das condições dos seus trabalhadores e outro tipo de cumprimentos como nós, então estarão em condições disso. Demorarão alguns anos, não sei quantos, mas a questão é se, nessa altura, nós ainda cá estaremos.  

 

Alm – E o nosso Governo, de que maneira poderia fazer diferença nestas circunstâncias?

 

LM – Poderia dar algumas ajudas no sentido de baixar os custos da energia, gás e electricidade, pois são empresas estatais ou semi-estatais. Com isso conseguiria baixar os custos da indústria, que, no fundo, é o único sector que produz algum bem útil, não são os serviços. E não há nenhum bem que possa ser produzido se os seus custos de produção forem superiores ao preço a que se podem vender. Por outro lado, no apoio às empresas por parte da previdência, o Estado não permite que qualquer empresa que tenha um atraso nos seus pagamentos à Segurança Social usufrua de apoios comunitários, só tendo esse direito quem tenha tudo em dia e em ordem com o Estado. Ora, é muito difícil alguém ter tudo em dia com o Estado, a não ser algumas raras excepções. Também aí não se sente grande apoio.       

 

 

Alm – O lay-off é um mecanismo eficaz no combate à situação ou é já uma medida limite antes do encerramento?

 

LM – Nós estamos a tentar por todos os meios ao nosso alcance não chegar a um encerramento. Mas isto significa uma economia nos custos de mão-de-obra. Há empresas com outros sistemas, de horas, mandando as pessoas para casa, e, daqui a uns meses, pedindo-lhes para voltarem e fazer essas horas que agora são dadas. Isto, claro, na esperança de uma recuperação. Nós apostámos num outro sistema que consideramos mais legítimo e que é apoiado pela Previdência, que é o lay-off. Isto permite que uma parte dos vencimentos, até ao valor do salário mínimo nacional, seja pago a 70% pela Segurança Social, e 30% pela empresa.

 

Alm – E como é que se processa a aplicação do lay-off junto dos vários trabalhadores?

 

LM – Este critério foi aplicado segundo a necessidade que há das pessoas no seu local de trabalho e perante o nível de encomendas que temos. Haverá eventualmente mais pedidos com bordados e então os trabalhadores dos bordados têm menos de lay-off. Outras onde há menos encomendas vão mais tempo para casa. Aos comerciais tentamos dar o menos possível para que estes lutem todas as horas do dia e da semana por mais encomendas, porque com isso resolveríamos o problema de produção. Pensamos, apesar de tudo, que não estamos pior que outras indústrias congéneres do norte. Estamos até melhor do que alguns desses casos. Mas, em relação ao país, isto é muito pouco animador.

 

JC – A fábrica produz diferentes tipos de artigos. Uns seguem determinados processos de fabrico, outros seguem outros. Neste momento estamos com poucas encomendas e as que existem não estão igualmente divididas por todo o tipo de produtos. Ou seja, há determinado tipo de equipamentos que têm mais pedidos do que outros. E ainda há as situações em que temos já o tecido feito, em stock, faltando fazer apenas uma parte do fabrico. Quem coloca esse tipo de problemas cá fora não são os nossos trabalhadores, são pessoas mal informadas. Quando se entra em lay off, e segundo a Lei, os trabalhadores têm garantido o salário mínimo ou até dois terços do seu salário se estiver acima do mínimo nacional. Isto com redução do tempo de trabalho como é o nosso caso. Mas como, infelizmente, os trabalhadores aos quais isto acontece estão todos muito próximos do salário mínimo, acontece que dois trabalhadores que tenham, um, uma redução de 40% do seu tempo de trabalho, e outro que tenha 20%, no fim do mês vão receber a mesma coisa. Portanto, quem tenha uma redução maior de tempo não receberá menos. Mas naqueles sectores onde pudemos aumentar o tempo de paragem, aumentámos. Porque também não queremos estar a produzir para a prateleira, a gastar matéria-prima e sem conseguir facturar.   

 

Alm – E como se procedeu a esse acordo com os trabalhadores?

 

JC – Falámos com os trabalhadores, de acordo com o procedimento legal, reunimos com a sua comissão representativa, que é a Comissão Intersindical, junto da qual foi fundamentada a decisão e apresentado um projecto inicial de redução da prestação de trabalho. A Comissão tomou conhecimento de tudo isso, aceitou os fundamentos, entendeu e deu a sua aprovação à redução da prestação de trabalho. Depois pegou nesses elementos e fizeram-se dois plenários com os trabalhadores sobre essa matéria. Decorridos os prazos legais entregámos uma carta a cada trabalhador com a redução de trabalho que a cada um caberia. Fizemo-lo com a maior boa fé, no sentido de tentar maximizar a redução da prestação de trabalho e garantindo os prazos de entrega acordados com os clientes. Claro que nos era mais fácil dar 30% a todos os trabalhadores, o pior seria fazer com que a empresa sobrevivesse depois, mantendo os postos de trabalho intactos.  

 

Alm – Neste momento que perspectivas há?

 

LM – Há uns três meses atrás ainda tínhamos encomendas razoáveis. Neste momento, de facto, temos muito poucas, e a pior fase do ano aproxima-se com o Verão. Depois, quando chega o final de Agosto e das férias, o Setembro geralmente melhora. Portanto, o nosso lay-off é de seis meses, e temos alguma esperança que quando chegar a nova época, em Setembro, consigamos voltar a ter encomendas mais razoáveis. Temos essa esperança, garantia nenhuma.

 

Alm – Acredita na viabilidade futura da Fiação e Tecidos?

 

LM – Por sistema sou um optimista. Como tal não gosto de me deixar ir abaixo por certas circunstâncias, ainda que a minha idade, 70 anos, não me deixe pensar em grandes futuros. Mas estou sempre à espera que as coisas melhorem. Com o que estamos a fazer acredito que sim. Com reduções de custos permanentes em tudo, com o lay-off, que é uma forma de redução de custos de mão-de-obra sem aumentar o problema do desemprego em Portugal, estamos a tentar chegar a um objectivo que é Setembro. Se nada se passar em Setembro de melhoria… não sei se o meu optimismo continuará.          

 

 

Em caixa:

 

 

Por seu lado, Joaquim Mendes António concorda que “a conjuntura internacional tem uma importância muito grande nesta decisão em virtude da referida condicionar negativamente a carteira de encomendas”. Segundo o sindicalista, “tendo em conta a redução drástica na carteira de encomendas, na prática o trabalho existente tem sido só para o mercado interno”, lembrando que “dificilmente a empresa ultrapassaria esta grave crise se não fossem tomadas medidas rapidamente”.

 

Questionado sobre as consequências do lay-off junto dos trabalhadores da CTN, Joaquim Mendes António explica que isto “implica uma redução nos salários dos trabalhadores na ordem de 1/3 da retribuição, ficando, apenas garantido um valor mínimo de 450 euros e um valor máximo de 1.350 euros. Como se trata de uma redução de tempos de trabalho, caso o valor correspondente ao trabalho prestado seja superior aos valores mínimos e máximos, são esses que os trabalhadores recebem.” Neste sentido, Mendes António aponta os sectores administrativo e chefes dos sectores de produção como os mais afectados, perfazendo cerca de 20 trabalhadores.

 

A acção do Governo na protecção destes postos de trabalho é “quase nula”. Segundo Mendes António o sector têxtil fica à margem dos apoios apregoados, dirigidos apenas a algumas empresas, uma vez que para “aquelas que não tenham a situação regularizada com a Segurança Social e as Finanças, o apoio é zero”

 

Questionado sobre o futuro que se pode antever para a Fiação e Tecidos, Joaquim Mendes António mostra-se pessimista: “Augura-se um futuro negro. Apesar da empresa,  por sua iniciativa, ter obtido uma linha de crédito junto do BES, se a carteira de encomendas não aumentar rapidamente a situação agravar-se-á, pondo em sério risco a sobrevivência da mesma.” E acrescenta: “Os sindicatos não gerem as empresas, logo não poderão nunca ser responsabilizados por problemas desta natureza. Neste caso, concreto, o sindicato tem pautado a sua actuação com muito cuidado, tendo sempre presente a salvaguarda de 152 postos de trabalho”, recorda.

Quanto à acção dos trabalhadores visados, o sindicato assegura que estes, “por seu lado, têm sido inexcedíveis na compreensão e paciência neste processo que nos vem afectando há largos meses, com subsídios em atraso e retribuições pagas em duas prestações mensais.” Com esperança no fim deste período de crise, Mendes António assinala ainda que “no sentido de minimizar os efeitos desta medida (lay-off), o sindicato reivindicou em sede própria (reuniões de informação e negociação), e a Administração aceitou, que passado este momento de crise fossem negociadas medidas que compensem os mesmos trabalhadores pelos prejuízos causados pela aplicação do lay-off”.

 

CLC

 

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