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Reacções concelhias à tentativa revolucionária de 1928

Duas narrativas locais mostram-nos a relação de Torres Novas com a tentativa reviralhista do 20 de Julho de 1928 rapidamente derrotada, centrada em Lisboa, no Quartel de Caçadores 7 sediado no castelo de
S. Jorge, com ligações a vários pontos do país. Uma, descrita em O Almonda de 28 de Julho do corrente; a segunda pela voz dum dos seus intervenientes anarco-sindicalistas, Faustino Bretes, em relato no seu manuscrito Odisseia dum Perseguido, já por nós citado noutro artigo, quando da sua primeira prisão em 1927 (Arquivo Municipal, Espólio Faustino Bretes, Caixa 4). Pela seu interesse  histórico,  transcrevê-los-emos.

O Almonda nº470: « A Revolução de Sábado- Castelo de S. Jorge.

No Entroncamento também as tropas ali aquarteladas se revoltaram. Conhecido o facto na Escola Prática mobilizaram-se rapidamente os esquadrões, tendo saído em direcção ao Entroncamento, acamparam junto à Ladeira do Pinheiro, tendo-se travado vivo tiroteio.

Uma vez mais a nossa Escola poude provar o grau de disciplina, de dedicação e de valor dos seus soldados mercê desse grupo admiravel de oficiais, uma verdadeira elite do nossso exercito que está à sua frente.

Corriam variados boatos na vila, tendo ao princípio causado certo alarme, mas rapida e energica foi a acção da nossa escola, até que às 10 horas de sabado entrava triumphante, no Entroncamento. Momento impressionante esse  segundo afirmou alguem que assistiu.

E ao princípio da tarde a nossa escola recolhia, tendo atravessado a vila, terno de cornetas à frente, garbosos e alegres, com a consciencia de terem cumprido o seu dever, E ao ve-los desfilar, cobertos de pó, mas com a alegria a transparecer no seu olhar e nós pensávamos como Portugal seria feliz e seria grande se todos tivessem a noção de dever e da disciplina, como esse punhado de portugueses e esse grupo de oficiaes – uma verdadeira e invocadora Ala dos Namorados.

– O Director de O Almonda telegrafou sábado ao Presidente da República, Presidente do Ministério e Governo Civil, congratulando-se com a vitória.

– Pelo comandante militar foram sabado afixados editaes, suspendendo as garantias, levantadas logo 2ª feira.

– Também nesse dia o nosso jornal foi suspenso, até 2º feira. – O Grupo de Artilharia de Santarém não chegou a entrar em acção. – No Entroncamento houve vários feridos, indo para Lisboa um deles. – Os oficiais revoltosos do Entroncamento tinham exercido já missões de confian- ça nessa situação.»

A acção da Escola Prática de Cavalaria, sob a chefia do coronel Mousinho de Albuquerque parece-nos ter sido decisiva para derrota dos revoltosos no Entroncamento. A fidelidade ao regime levou a que o governo tenha nomeado aquele oficial, Intendente da Segurança Pública, sendo substituído no comando da Escola  pelo coronel Namorado Aguiar  (O Almonda nº472, 11/8).

Vejamos a segunda narrativa, de Faustino Bretes «A partir dos alvores de 1928, e na altura estando à cabeça o tenente Boaventura Leitão, entrei de participar nos preparativos do movimento que, nesse mesmo ano, viria por seu turno a ser o malogrado 28 de Julho. Devido a traição ou, quando menos, indesculpável falta de prudência dum certo implicado, porém, eu e outros amigos (não indica) havíamos por isso sido detidos. Na prossecução de várias semanas, sobremaneira sofremos nos lôbregos calabouços da polícia, esquadra do Canto da Cruz, em Santarém, após o que nos conduziram à Polícia de Informação e, desta, ao forte de Monsanto. Assim decorreram longos meses. Depois, voltámos à liberdade, mas, para mim, desta feita, revestindo forma condicional, pois  despoticamente se me fixou residência em Alcobaça. Em absoluto falto de pecúnia e, repito, já com família constituída, embora menos áspera tal situação me acarretou grande amargura, até por na própria Pátria ver-me desterrado.»

No ano seguinte já o encontramos, activo, em Torres Novas.

E os republicanos e os democratas concelhios? Cremos que estão fora deste acto revolucionário, já que o Centro Republicano continua aberto, com diversas actividades, projectadas pelo Grupo Musical Torrejano, aí sediado. Procuram, antes de mais, manter viva a sua existência política, num compromisso tácito local com as figuras liberais da ditadura militar (a que não será estranho o papel da vida associativa no Clube Torrejano, onde a pequena e média burguesia local, da direita à esquerda políticas, conviviam com os oficiais da Escola Prática de Cavalaria). Naquele pontificam, como sócios, algumas figuras republicanas, como, entre outros,  da esquerda democrática, o Dr. Antonio Pinto de Magalhães e Almeida, dos republicanos conservadores, Artur Gonçalves, ou o Dr. Vinagre e o Dr. Moita de Deus, ex-camachistas. Compromisso que assenta em algo comum a ambos os sectores políticos: o nacionalismo, a glorificação da Pátria pela grandeza da sua História, a defesa da República, a noção da ditadura como forma de transição para a democracia. Dessa forma, a sua proposta das acções de carácter cultural, cujo êxito é reconhecido nas reportagens do próprio semanário. Assim, sob a direcção do Dr. Augusto Moita de Deus e com o apoio do Grupo Musical Torrejano, dirigido pelo maestro Manuel Antunes dos Santos, no referido centro se realiza entre Maio e 7 de Julho, quinzenalmente, pelas 22 horas, às quartas ou quintas-feiras, um programa cultural, intitulado Uma Hora Útil

As sessões, sempre publicitadas em O Almonda, recebem-lhe os maiores elogios, quer pelo brilhantismo dos oradores, quer pela leitura de textos literários ou recitação poética, quer pela qualidade do concerto musical que se lhes sucedia. Ainda que elas cessem antes da data revolucionária, a
actividade do grupo musical continua em funcionamento.    De tal forma, que uma nova série será levada a efeito em 1929.

antoniomario45@gmail.com

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