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A senhora dos sorvetes

“Oh servété, olha o servété, é doce e fresquinho” era assim que a senhora que vivia na Rua Direita de S. Pedro anunciava por toda a vila de Torres Novas e em especial na avenida marginal, os gelados fresquinhos que ela própria confeccionava e que transportava num pequeno carrinho com duas rodas de bicicleta, que ia empurrando ao mesmo tempo que apregoava.

E a miudagem lá acorria, pedindo uns tostões aos pais, para poder refrescar as suas gargantas quentes, que ficavam açucaradas no fim de chuparem o sorvete, tal o teor de açúcar que cada gelado continha.

Mas, nessa altura, na miudagem ninguém ouvira falar de diabetes e toca a despachar tantos sorvetes quantos o dinheiro lhes permitia.

Era no tempo em que ninguém sonhava com telemóveis, que quase não havia televisão e mesmo as rádios eram escassas, se bem que mais numerosas, onde se ouviam os relatos de futebol entre Benfica, Sporting e Porto, os jogos da selecção nacional e pouco mais. Era o tempo do Artur Agostinho, do Amadeu José de Freitas e do Nuno Brás que relatavam não só o futebol como o hóquei em patins, que nos verões de então arrebatavam não só os pequenotes mas também a  maioria dos graúdos. Nomes como os primos Jesus Correia e Correia dos Santos no hóquei português e de Zabalia, Mas e Trias do lado espanhol, nunca sairão das nossas memórias.

E o que a gente brincava na avenida, nas ruas do centro da vila e em especial na Praça 5 de Outubro, com paus a fazer de sticks e volantes de arame a fazerem de bicicletas? Mas hoje, a rainha deste artigo é a nossa senhora dos sorvetes, de branco vestida, com um lenço na cabeça por causa do sol e com aquele carrinho de duas rodas, cheio de gelados doces e fresquinhos, que tanto mataram a nossa sede e tanto nos fizeram sonhar de felicidade. A senhora dos sorvetes não vendia só refrescos, vendia também sonhos à criançada e ainda hoje nos refresca as memórias, merecendo de nós um eterno obrigado.

 

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