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A minha primeira bola de borracha

É das primeiras memórias que conservo e não sei precisar qual a minha idade nesse dia de brincadeira e de alegria da minha meninice. Mas que ficou gravada na minha mente isso ficou.

Nesse dia meus pais ofereceram-me um brinquedo encantador, uma bonita e garrida bola de borracha.

De imediato procurei três ou quatro colegas da minha rua para podermos estrear a bola, fomos para a travessa da Enfermaria Militar e toca a jogar, imitando os rapazes mais velhos que ali jogavam todas as tardes. A bola lá rolava e rebolava e lá levava os chutos dos putos e a alegria era esfuziante até que… a bola rolou pela ladeira do Hospital Militar até à Rua de Valverde, junto à casa do senhor Arlindo Pessoa de Amorim e à loja do Manuel Marcelino. Eu corri atrás dela para a apanhar e eis que surge um homem esguio e esquisito, de pé descalço, de boina na cabeça, barba por fazer e coração de pedra, que não só apanhou a minha bola, como a levou dizendo: “Esta nunca mais a vais ver!”.

De facto nunca mais a vi e de desgosto chorei baba e ranho. Confesso que nunca mais o meu coração de miúdo perdoou a esse homem, sapateiro no Largo de Valverde, Virolas de seu nome, que tinha um rancho de filhos e quem sabe, também colecionava bolas roubadas a miúdos como eu.

Nunca lha pedi em troca, mas em contrapartida nunca lhe perdoei o roubo da minha querida bola de borracha, até hoje…

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