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As Antigas Armas da vila de Torres Novas

No panorama das primeiras obras sobre heráldica municipal é imprescindível citar o livro “Poblacion General de España…” (1645), de Rodrigo Mendez Silva. O autor, na sua vasta compilação, descreve as armas municipais “de todas as cidades, vilas e lugares memoráveis de Espanha” (op. cit., fól. LI). Acerca do brasão, da vila do Almonda, Rodrigo Mendez Silva, diz o seguinte: “tem por armas, segundo parece em uma certa porta antiga, um castelo, ou torre, encima uma mão apertando uma maça” (op. cit., fól. 162 f.). A porta antiga, a que se refere a obra, deve ser a do Arco do Salvador ou a da Praça, pertencentes à coeva muralha fernandina. Além dos autores atrás referidos, outros importantes heraldistas contribuíram para a divul- gação dos brasões de armas dos municípios e da nobreza do reino de Portugal. Mas, para não tornar extenso o presente artigo, iremos circunscrever a nossa análise a algumas obras impressas após a paradigmática data de 1855. Aquando da cerimónia de aclamação do rei D. Pedro V (1837- 1861), na cidade de Lisboa.

Esta marcante festividade está na origem do despertar pelo interesse da heráldica municipal. Para isso muito contribuiu os moldes em que foi organizada a cerimónia do coroamento de D. Pedro V que, sucintamente, passamos a descrever: Antes da cerimónia real fez-se o levantamento das armas dos principais municípios portugue- ses para figurarem no friso heráldico. A sua presença simbólica era o sinal, dado ao monarca, do assentimento dos municípios em relação ao legítimo e soberano poder de D. Pedro V.
A tarefa de recolha dos principais brasões municipais revestiu-se de algumas dificuldades. Eram escassas as fontes impressas onde os responsáveis pela organização dos festejos pudessem colher informações sobre os seus brasões de armas. A solução foi encontrada, no principal arquivo estatal, “através do recurso a um armorial, de onde foram copiados os escudos do livro de Duarte D’Armas, existente na Torre do Tombo” (“Descripção da Solenidade da Acclamação de Sua Majestade El-Rei de Portugal o Senhor D. Pedro V…”, Typographia do Correio Mercantil, 1855, pág. 2). Ao todo foram sessenta e sete o número de brasões das armas municipais que compuseram o friso. Entre os quais figurava o da vila de Torres Novas.

O friso heráldico teve o condão de provocar um enorme fascínio no povo que assistiu ao coroamento do monarca. Deslumbrado perante o efeito das luzes e das cores garridas no heteróclito conjunto de escudos municipais. Estava dado o passo para o despertar da curiosidade do público em torno destes velhos emblemas. Símbolos da história e autonomia dos municípios portugueses.

Após a marcante cerimónia, foram vários os heraldistas que se deram ao trabalho de divulgar e tentar explicar a carga mítica e simbológica que estavam por detrás dos coevos brasões municipais. O malogrado heraldista, Henrique Luiz Feijó da Costa (1842-1864), ainda conseguiu descobrir o significado de quase metade dos brasões das armas municipais que constam no seu pequeno livro “Descripção das Armas Reaes de Portugal” (1857). Infelizmente, sobre o brasão de Torres Novas (pág. 41), a sua descrição limita-se a repetir a que já se encontrava no livro “Poblacion General de España…” (1645), e na “Da Corografia Portugueza” (1712) do Padre António Carvalho da Costa (“Da Corografia…”, tomo III, pág. 281).

Também diversas publicações se deram ao trabalho de editar colecções com os brasões municipais. Foi o caso da muito procurada colectânea de cartões com as armas das cidades e das vilas de Portugal. O brasão de armas da vila de Torres Novas integra a importante coleção. Na legenda, a propósito do brasão torrejano, é referido o seguinte: “tem um campo vermelho e uma torre de prata sobre terreno, tendo por cima de uma das ameias um braço de guerreiro armado de uma clava de ferro”.
A presença deste último metal foge às regras da heráldica. Para a constituição do brasão das armas só era possível a utilização de dois metais nobres: o ouro e a prata. O mesmo desvio às regras acontece com Augusto Soares de Pinho Leal (1816- -1884) ao afirmar que o braço e a clava são de ferro (“Portugal Antigo e Moderno” (1880), vol. IX, pág. 620).

Outro autor a considerar, na edição do armorial autárquico, é Inácio Vilhena Barbosa (1811-1890). Na sua obra, o heraldista lisboeta, procurou descobrir os elementos míticos e heróicos da história passada de cada município e que se inscrevem no seu brasão de armas. Havia, por parte de Vilhena Barbosa, a intenção de congregar a diversidade histórica, específica de cada município, num todo a que podemos chamar de “alma nacional”. O seu afã de recolher os elementos constituintes de cada brasão de armas inscreve-se numa vertente com fins didáticos e pedagógicos. Para o autor, era importante dar a conhecer aos portugueses a sua memória colectiva e o seu passado histórico. De forma a unir a nação portuguesa num destino e projecto comum.  É sobre esta tónica que Inácio Vilhena Barbosa levou a cabo a ideia de sistematizar os elementos históricos de cada município e de identificar os aspectos peculiares inscritos nos seus brasões. Sobre o brasão de armas da vila de Torres Novas, o historiador lisboeta, diz o seguinte: “O brasão d’armas d’esta villa é, em campo vermelho, uma torre de prata sobre terreno verde, tendo por cima das ameias um braço de guerreiro armado de uma clava de ferro” (BARBOSA, Henrique Vilhena; “As Cidades e Villas da Monarchia Portugueza que teem Brasão D’Armas”, Tomo III, Typographia do Panorama, Lisboa, 1862, pág. 94). A partir desta descrição de Henrique Barbosa, realizada na segunda metade do século XIX, o brasão de armas de Torres Novas sofreu diversas alterações. Algumas delas de discutível pertinência. Hoje em dia, o brasão de armas torrejano, é presença imprescindível em qualquer evento ou cerimónia promovida pela autarquia.  Símbolo do poder e da autonomia municipal, nos seus elementos constituintes subjaz o espírito colectivo que entrelaça a memória histórica e as aspirações dos torrejanos no contexto da nação portuguesa.

Texto escrito com a antiga ortografia

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