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Problemas concelhios – 1927

Já vimos que as revoluções republicanas fracassadas de fevereiro de 1927 tiveram repercussões em Torres Novas. Não só com a prisão de Faustino Bretes, o editor do jornal anarquista O Resgate, que, em consequência, cessa, no n.º 20, de 16 de fevereiro, a sua publicação. Os acontecimentos surgidos no Porto, Lisboa, Entroncamento, não deixaram de ser citados no semanário O Almonda (n.º 395, 19/2) e (n.º 396, 26/2), neste último se informa que tudo já voltou à normalidade, inclusive «retiraram as tropas do Entroncamento». Por sua vez, a Comissão Executiva Camarária, que é informada pelo Comandante da Escola Prática de Cavalaria, por ofício de 31/1, da visita àquele estabelecimento militar, no dia 16 de fevereiro próximo, do Presidente da República (Actas Camarárias, 4/2), saúda o governo, por proposta do presidente (Dr. João Martins de Azevedo), com o envio de dois telegramas: «Exmo Senhor Presidente da República – Lisboa – A Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Torres Novas, congratulando-se com V. Ex.ª, pela brilhante vitória sôbre os revoltosos, sendo o Govêrno, a que V. Ex.ª tão patrioticamente preside, fazendo votos para que continue com decisão e energia, cumprindo a nobre missão tendente ao ressurgimento da nossa querida pátria». «Exmo Ministro da Guerra-Lisboa – A Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Torres Novas saúda V. EX.ª e bem assim o exército português que sob a sua enérgica  e competente direcção tão nobre e galhardamente soube cumprir o seu dever».

A data da visita, em consequência dos acontecimentos, foi alterada. Realizou-se a 27 de Março, acompanhado pelos ministros da Guerra, Justiça e Comércio. O da Agricultura, anunciado, substituiu-o um secretário. O Almonda dá conta da efeméride, a 22, e descreve a visita, a 26, publicando na primeira página uma fotografia do presidente (n.º 400). Mas, a grande e pormenorizada reportagem jornalística executa-a no exemplar de 2 de Abril (n.º401), em 4 páginas, onde se revela o percurso, os visitantes, a comissão de honra, os presentes de todo o distrito, as inaugurações, que não cabem no espaço deste  artigo. Permite esse número não só  um estudo das elites sociais do distrito, em 1927, como as linhas do pensamento conservador-liberal da ditadura militar que emana dos respectivos discursos.

Apesar das tentativas revolucionárias de Fevereiro, mesmo, mais tarde, da de Junho, a po
lítica conservadora-liberal de Carmona reflecte-se na tentativa duma aliança, ainda que discreta, com as forças conser- vadoras dos anteriores partidos republicanos, conseguindo inclusive o seu apoio na criação duma União Nacional Republicana para apoiar a sua candidatura às eleições para a Presidência da República, o que acontecerá em 25 de Março de 1928. O mesmo, já em 28 de Maio de 1927, anunciava próximo a realização de eleições legislativas, a que se seguiriam as autárquicas (Rosas, cit. 167/168). Contudo, no exterior do país, a partir de Fevereiro de  1927, organizava-se a Liga de Paris, presidida por Bernardino Machado, e onde pontificavam, entre outros, Afonso Costa, Jaime Cortesão, Pina de Morais, e que em 1928, se reúnem em casa do antigo presidente da República, com elementos exi- lados em França do PRP, o Dr. Lago Cerqueira, Mariano Felgueiras e o tenente Agatão Lança, para coordenarem a revolução republicana em Portugal e preparando, inclusive, o futuro governo democrático (A. H. de Oliv. Marques, A Unidade da Oposição à Ditadura, 1928- -1931, Pub. Eur. América, Acta 1, 17/25).

Mas o interior não lhes correspondia, após as prisões e deportações dos militares, oficiais e sargentos. A resposta aos graves problemas económicos conduzia o país a um compasso de espera, em que qualquer distúrbio era prontamente sufocado.

Torres Novas é disso exemplo. Se percorrermos a série de O Almonda desse ano, verifica- mos uma certa pacificação social, onde os problemas fundamentais, além da manutenção da defesa da ideia da linha do caminho de ferro Entroncamento/Rio Maior, surge a ligação da linha telefónica Torres Novas-Lisboa, para a qual surgem 181 subscritores (O Almonda n.º 396, 26/2/1927). A 11 de Novembro inaugura-se o monumento aos mortos do concelho na Grande Guerra, fruto de subscrição pública (Gonçalves, Artur, 197/208). Também, durante o mês de Outubro, devido a um fogo na fábrica de grudes do Sr. Manuel Cardoso Jr., que ardeu por inteiro, se tentou a criação do corpo de Bombeiros  (O Almonda, n.º 426, 24/9; n.º 427, 1/10; n.º 428, 8/10; n.º 429, 15/10), mas que não se concretizou, apenas tomando corpo em 1931. (Paiva, Ana Maria L., Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários Torrejanos (1931-1981), Torres Novas, pág. 22). Chegaram a inscrever-se 29 (O Almonda, n.º 431, 22/10). Deixemos, para outro artigo, o problema da crise de trabalho, o problema da tuberculose concelhia, a acção da comissão administrativa, a alteração legislativa que termina com a a Administração do Concelho, transferindo-a para a responsabilidade da Câmara Municipal, e as mais duas visitas ministeriais, assim como a concretização, no final do ano, a 27/12, da inauguração da linha telefónica Torres Novas-Lisboa tão desejada, pelo ministro Artur Ivens Ferraz (Gonçalves A., Memórias de Torres Novas, 120).

antoniomario45@gmail.com

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