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1927 – Influência das tentativas revolucionárias no concelho de Torres Novas

Durante o ano de 1926, a partir da presidência do general Carmona (9 de Julho), dois grupos se estruturam no sector oposicionista à ditadura: um, que opta pela via revolucionária, um segundo pela via colaboracionista com os generais republicanos conservadores da ditadura. No sector militar da ditadura também se discortinam duas correntes: uma, constituída pela maioria dos chefes militares, de orientação republicana, com ligações à maçonaria e adeptos dum liberalismo conservador; outra, onde proliferam a alas direitistas dos movimentos católicos, conservadores, integralistas, e dos jovens oficiais (os tenentes), influenciados por teorias maurrasianas e os governos ditatoriais do general Primo de Rivera em Espanha (1923) e de Mussolini na Itália (1922), que se opõem de forma radical ao retorno ao sistema democrático (Rosas, Fernando, Da Ditadura Militar ao Estado-Novo-A longa marcha de Salazar, Hist. Portugal, coord. José Mattoso, VII vol., c. Leit., págs 164/165).

e há uma aproximação dos moderados do regime militar e da oposição republicana, que assenta num projecto dum regime transitório, em que «a ditadura é o garante da transição para um sistema liberal», (Rosas, id, 167), o sector mais à esquerda promove, em 1927, um golpe revolucionário, que, por incompatibilidades várias, se concretiza em duas datas diferentes, a 3 de Fevereiro no Porto e só a 7 em Lisboa, o que permite ao ministro da defesa general  Passos de Sousa, derrotar ambas as tentativas revolucionárias.(Vide, Rosas, cit, 214/218).

É a partir deste momento que o governo endurece a sua actuação, deportando a maioria dos militares e civis republicanos que intervieram nas tentativas revolucionárias. «A 21 de Fevereiro, são despachados de Lourenço Marques, sem julgamento, mais de 700 deportados para os Açores e as colónias africanas».(Rosas, cit., 218). Em Torres Novas, se no sector militar e no dos republicanos, não nos surgem quais elementos informativos, sabe-se que, no sector anarco-sindicalista, houve alguma agitação e mesmo prisões. O auto de investigação levantado pelo delegado do governo no concelho Mário Ramos de Deus, secretariado por Artur Virgílio Arez de Vasconcelos, em 9 de Março de 1923,  centra-se na inquirição da existência  de «um comité de propaganda bolchevista, estabelecida nesta vila e sua acção durante o período revolucionário de dois a doze de Fevereiro último, o qual segundo consta era constituido pelos seguintes indivíduos: José dos Santos Ferreira, Joaquim Vicente Pedroso, Faustino Bretes, José Simões e José Macedo». Ouvidas as testemunhas, Arlindo Pessoa de Amorim, escrevente, Manuel Marques Sepodes, industrial, Mário Pessoa de Amorim, comerciante, Alfredo da Silva, serralheiro, Luís António Tuna, escrevente, João Francisco Gomes, podem-se extrair as seguintes conclusões:

APS – Faustino Bretes, redactor e editor de O Resgate, tinha ido ao Entroncamento, logo num dos primeiros dias da revolução e ali aconselhara vários soldados que não fossem combater os revoltosos. MMS – Pertencera ao CP, do qual se encontrava afastado há uns 4 anos, os arguidos no presente auto tinham sido seus correligionários. Mais tarde tinham-se reunido numa frente única todos os partidos avançados como socialistas, anarquistas, comunistas, sindicalistas, etc.

José dos Santos Ferreira, Joaquim Vicente Pedrosa e Faustino Bretes eram anterior- mente anarquistas e, dissidentes, regressaram ao mesmo partido. José Simões fora expulso do PCP por ter consentido que sua filha fosse à comunhão MPA – Faustino Bretes, durante os dias do movimento revolucionário, mostrava grande contentamento pela acção dos revoltosos, como José Macedo. AS – Viu os arguidos estarem reunidos na barbearia  de José Simões a discutir, parecendo ao depoente que era assunto comprometedor, pois que acabavam logo que algum se aproximava. LAT – Faustino estivera no Entroncamento incitando soldados à revolta. Os arguidos se reunem na barbearia do Simões. JFG – Soube, por ser voz pública, que Faustino Bretes fora ao Entroncamento. Deste inquérito, o único preso efectivo foi Faustino Bretes. Sabemo-lo por duas vias. A 20 de Junho de 1927, o preso Faustino Bretes é transferido para Lisboa, pelo oficial de diligências Artur Ferreira Pires. (Corr. Adm.  c/ Director Polícia de Informação do Ministerio do Interior, Lº 1560, nº289, fls.379). E em 5 de Julho, segue para a mesmma directoria outro ofício, com as des- pesas de prisão do citado, anexo aos autos (id, nº308, fls. 393).

A segunda fonte informativa é a do próprio, através dum manuscrito muito rasurado, com oito folhas (uma repetida), datado de  8 de Maio de 1978, que não sabemos se terá sido enviado a alguma entidade (Arq. Mun. Torres Novas, Espólio Faustino Bretes, Caixa 4, Odisseia dum Perseguido).  «Como todos, ao menos pela História, sabemos, a 3 de Fevereiro do ano imediato, 1927, no Porto  irrompiam as primeiras  e revolucionárias tentativas  de nacional libertação do jugo salázaro-fascista, que dia a dia mais vinha consolidando-se Elas infelizmente frustraram-se  e logo a Reacção pretendeu de novo aniquilar-me. Contudo, embora quase à vista de quatro militares graduados
que já dentro da minha residência buscavam deter-me, por uma janela consegui escapulir-me, sendo assim compelido à clandestinidade. Já com mulher  e filhos, aliás filhas, e delas saudoso, a ocultas retornei ao meu lar. Porventura dotados de faro especial, em breve os janízaros outra vez  nele meteram inopinadamente o nariz  e então, corria  Junho daquele mesmo ano acima, 1927, me aprisionaram, sem demora conduzindo-me aos fétidos calabouços do Governo Civil de Lisboa, donde, após interrogado pelo tenente Brás Vieira, director da Polícia de
Informação, e já com processo instruído, transcorridas semanas me levaram para a Penitenciária, ali passando alguns meses. Numa certa manhã de Setembro comigo atiram para um carro blindado e me conduziram ao Tribunal Militar Especial de Santa Clara. Até pela nova situação ditatorial não estar  ainda bem radicada, logro sentença absolutória. Isto de resto à sociedade, que mais não fosse, mostra  quanto era deveras acintosa a perseguição que há muito se me vinha  movendo». antoniomario45@gmail.com

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