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Com Passo Certo

Ele andava desorientado. Já com uma certa idade parece que tudo se estava a distanciar de si e tudo era estranho, cada vez mais estranho. Chegava à noite e a sua querida televisão inundava-o de futebol e futebol e outras pantominices.

Certamente a culpa era sua que já cá andava a mais, não se adaptava. Entrava no café e, nas mesas, os clientes sentados, em pesado silêncio, dedilhavam o telemóvel. Ele, como um estranho, tomava o café à pressa, nesse reino de silêncio e pessoas cabisbaixas como em velório, saía em bicos de pés com medo de perturbar.

Muniu-se de um livro para a viagem parecer mais curta. Sentou-se na carruagem e iniciou a leitura. Logo começa a ouvir os mais enviesados toques de telemóvel. Mas com os olhos no livro lá foi discorrendo pelas letras e matando o tempo. Os toques continuavam sempre. Era como se estivesse perdido numa noite de grilos e de ralos. Levantou os olhos do romance e viu que à sua volta todos estavam munidos do pequeno aparelho. Uns dedilhavam o teclado, outros, encostando-o à orelha, falavam. Uma jovem olhava o aparelho e candidamente sorria, sorria, hipnotizada.

Nesta viagem o telemóvel tinha tomado conta de tudo. Sentiu-se culpado. O livro que segurava tinha-se tornado um objecto estranho, fora de uso. Só ele não estava dependurado do telemóvel. Com o sentimento de perseguição que o apoquentava doentiamente, pareceu-lhe que todo o comboio o olhava.

Quando chegou ao fim da viagem, saiu. Atravessou o corredor da carruagem com a sensação de que todos os olhares se fixavam na sua nuca, parecia-lhe que ia numa formatura com o passo trocado ou que levava uma meia de cada cor. Saiu da estação, entrou numa loja, respirou profundamente e comprou um telemóvel. Do livro que o acompanhava nunca mais soube dele, nem lhe faz falta. Ele agora tem um telemóvel.

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