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Amarelo azul verde

O horizonte começa a esbrasear. O céu, ainda do cinzento noturno, vai-se azulando primeiro esbatido, auricerúleo a nascente. A vegetação rasteira mostra tons esverdeados oliva, secos como o verão. Por toda a parte há lixo: plásticos espreitam entre a vegetação, coloridos uns, corolas citrinas, transparentes outros, impossíveis alforrecas terrestres; como turquesas, brilham pedaços de vidro espalhados pela areia; cadáveres de latas ensanguentadas, cerveja, atum, repousam, repulsivo tal o limo à tona de águas pútridas. Ao lado, espécie de monólitos modernos, repousam os recipientes do ecoponto. No local onde alimentam os gatinhos, porque os animais não sabem reciclar, abundam restos dos recipientes onde lhes dão água e comida. De pouco serve apanhar estes restos da civilização porque amanhã, no novo alvorecer, tornarei a encontrar iguais vestígios, como uma maldição. Será que custa assim tanto perceber a importância da reciclagem. Será assim tão difícil o esforço de colocar cada pedaço de lixo no recipiente certo. A quantidade de resíduos que produzimos no nosso concelho e que chegou à Resitejo foi, em 2017, 1606 toneladas de recolha seletiva (10,35%) e de 13910 de recolha indiferenciada (89,65%). Há quem utilize o argumento (já mo disseram!) que não recicla porque quando o faz está a dar a ganhar a empresas que lucram com isso. Este raciocínio não tem qualquer razão de ser já que cada tonelada de lixo indiferenciado tem um determinado custo, que todos pagamos; ao invés, cada tonelada de lixo reciclado representa um determinado valor. Assim quanto mais reciclarmos tanto menos temos a pagar para não falar, evidentemente, no benefício maior, cada vez mais importante e premente da salvaguarda dos recursos naturais que vão escasseando a um ritmo alucinante. Por isso torno a perguntar, agora que o sol é já brasa incandescente, o céu ciano claro, quase branco, a vegetação tem os tons da camuflagem em caqui: é assim tão difícil, amarelo, azul, verde?

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