Querido Camões

Desculpa se a citação que faço do teu belo soneto: Alma minha gentil que te partiste, num contexto diferente, te vai ofender, mas diante dos maus-tratos a que alguns portugueses sujeitam a nossa querida língua, queria que tu soubesses que há ainda quem procure respeitá-la e respeitar-te. Escreveste tu: Se lá no assento etéreo, onde subiste/ Memória desta vida se consente – agora acrescento eu – bem podes indignar-te com o menosprezo, a ignorância que muitos portugueses do sécu- lo XXI demonstram pela língua que tu tanto amaste.

Bem sei que um escritor da nossa praça e, por sinal, muito lido, disse sobre o teu magnífico poema Os Lusíadas que “não teriam qualquer valor”, não me admira que outros escreventes não saibam português. Para esses era preferível escreverem em inglês.

Não sabes certamente o que é a Televisão cuja invenção teve o mesmo alcance que a invenção da Imprensa no teu tempo. Eu digo-te que é um meio poderoso para cultivar ou destruir a tua e nossa língua que tu soubeste cultivar com tanto esmero e valor. Ora essa televisão entra pelas nossas casas dentro usando muito mal a nossa língua, sem cuidado, com erros, sem respeito por um património que não sei se sabes, hoje é falado em todo o mundo. Mas como tu também dizes no teu poema: Entre os portugueses alguns traidores houve algumas vezes, nos jornais (estes são publicações, muitas delas diárias e lidas por muita gente) em duas frases há uma expressão em inglês e um erro em português.

Acho que no teu tempo havia o culto da língua e os que sabiam ler e escrever tinham o cuidado de o fazerem bem. Hoje usam aquilo que popularmente se chama uma língua-de-trapos.

Alguns professores universitários acham que complicando a nomenclatura gramatical tornando a gramática incompreensível, embora tecnicamente julguem ser um avanço, complicam aquilo que é simples, tornando a gramática odiosa aos nossos alunos. Tal e qual como fazem ou faziam ao teu poema tornando-o um bicho das sete cabeças e não uma leitura esclarecida e que gostamos de ler. Já me parecem alguns, lentes da Universidade de Coimbra, no teu tempo. Quanto mais complicados fossem, melhores professores seriam.

Concluindo: lá onde estiveres, fica sabendo que ainda há muitos portugueses orgulhosos da sua língua, cultivando-a com esmero como tu fazias. O teu dedicado leitor.

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