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Uma vida rica

Quando era miúdo, vivia em Valverde em casa de meus pais, no número seis daquela rua, no segundo andar, com águas furtadas e tudo. Meus pais trabalhavam por conta dos seus tios, D. Emília que era irmã da minha falecida avó Lucília, de Vila Moreira e Joaquim da Silva Patrício que cuidaram dos sobrinhos após a morte da minha referida avó, mãe de meu pai.

A família de Joaquim da Silva Patrício era tida como uma família abastada, com uma vida desafogada, com um comércio de mercearias e miudezas para calçado e com duas sapatarias, com casa própria e construída de raiz e ainda com uma quintinha na Calçada António Nunes.

Meu pai e dois dos seus irmãos mais velhos, vieram para Torres Novas ainda crianças e ali foram acolhidos, aí se empregaram e dali constituíram as suas famílias.

Como se calcula, a minha vida alternava com a vida de pobre ou remediado, pois meus pais nunca me faltaram com coisa alguma e a vida de rico, pois frequentava a casa dos meus tios como se minha fosse, convivendo e brincando com os meus primos de Torres Novas e no verão com mais uns cinco vindos de S. João da Madeira.

Para além dos amigos de rua e de bairro, ainda tinha as companhias que referi, bem como a dos amigos e amigas dos meus referidos primos. Não me devo esquecer de mais quatro primos, também netos do meu tio Patrício, que viviam em Moçambique e que aqui vieram frequentar o final do secundário. Portanto de falta de paródias e brincadeiras não me posso queixar e só lamento verificar que a vida nos afastou com a idade, tendo-os reencontrado há cerca de dois anos, através do Facebook, um belo aparelho de busca, que nos permite hoje em dia estarmos ligados e trocarmos mensagens com frequência. Não posso esquecer a minha irmã Glória, as minhas primas Teresa e Laidinha, que também muito brincavam no quintal do senhor Patrício.

Ora eu, amigo das cantigas desde moço, aliava esta vida de “sacrifício” com as músicas e com os amigos também com queda para as notas musicais, O Julião, o João Luis, o Varela, o Carlos Nicolau, o André, o Rui Venâncio e outros amigos do bairro como o João Manuel, o Fernando Moura, o João Artur, de entre outros, sem esquecer o Carvalho que era o dono da bicicleta… Jogava-se ao número com os rebuçados comprados na loja do Fera, aos polícias e ladrões e nos intervalos desta brincadeira, também íamos à escola, para aprender a sermos homens como devia ser. Ou seja, a minha vida sendo remediado foi sempre uma vida rica, nunca esquecendo que como em tudo na vida “mais vale sê-lo que parecê-lo”, mas que foi uma juventude de ouro isso foi…

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