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Órfãos Torrejanos no Mosteiro de Nossa Senhora do Desterro

No ano de 1780, por determinação do controverso Intendente Geral da Polícia, Diogo Inácio Pina Manique (1733-1805), era criada a Real Casa Pia de Lisboa. Desde a sua fundação a Casa Pia tem-se revelado como uma das mais importantes e benéficas instituições na ajuda e educação dos desvalidos da sociedade. Inúmeras crianças órfãs devem à protectora mão da nobre instituição o facto de conseguirem escapar à vasta fileira de indigentes e de marginais da sociedade. Ao longo dos seus quase 240 anos de existência, a Casa Pia foi responsável pela formação e educação de milhares de órfãos. Muitos deles chegaram a desempenhar funções de relevo em sectores-chave da sociedade portuguesa. A jeito de curiosidade, podemos referir que o principal fundador do Sport Lisboa e Benfica, Cosme Damião (1885-1947), foi aluno da Casa Pia. O mesmo aconteceu com o torrejano Artur Gonçalves (1868-1938) e o escultor, natural da Golegã, Martins Correia (1910-1999). Desde a sua primeira época, no Castelo de São Jorge (1780 a 1807), a Casa Pia revelou-se como uma instituição muito à frente do seu tempo. São dignos de nota o seu pioneirismo e inovação nos domínios do ensino, do desporto, das ciências, das artes e na formação profissional dos alunos. Sendo esta última vertente uma das maiores preocupações da instituição. A Casa Pia sempre pretendeu prover o aluno, na altura que abandonasse a instituição, de saberes e meios que lhe permitissem ganhar o seu sustento e constituir uma família. Nos seus primeiros tempos a Real Casa Pia de Lisboa foi uma verdadeira academia do povo. À partida todos os alunos recebiam a instrução elementar e aprendiam um ofício. Os que se revelavam mais inteligentes, a instituição prolongava a sua formação, dando-lhes, até, a possibilidade de frequentarem aulas de medicina, direito, artes, etc., nas Universidades portuguesas ou, mesmo, no estrangeiro. Caso paradigmático aconteceu com o extraordinário pintor casapiano Domingos Sequeira (1768-1837), que seguiu os seus estudos, às expensas da Casa Pia, na Academia Portuguesa, em Roma. A grandeza e o reconhecimento que a instituição granjeou na altura, abriu as portas da Casa Pia a alunos exteriores. Filhos de famílias abonadas. Mas a continuidade da instituição foi posta em causa aquando da invasão do exército francês, em 1807. À chegada à capital, as tropas francesas logo trataram de ocupar as edificações do Castelo de São Jorge, onde estava sediada a Casa Pia. De um momento para o outro, as largas centenas de crianças e jovens eram impiedosamente expulsas das instalações que, até aí, lhes deram segurança e bem-estar. Condenando novamente, a maior parte deles, aos infortúnios da mendicidade e da vagabundagem. A guerra peninsular teve também como consequência a fuga massiva um elevado número de desvalidos para a capital do reino. Na última invasão, comandada pelo marechal Massena (1758-1817), o povo das terras da Beira e da Estremadura rumaram a Lisboa para fugir às atrocidades cometidas pelas tropas francesas. A acumulação de população aumentou exponencialmente a falta de víveres, reduzindo à indigência e à fome milhares de citadinos. Quando o exército invasor foi obrigado a sair de Portugal, para trás ficou um rastro de miséria, destruição e de fome. Nas zonas mais afectadas do país era enorme o número de crianças abandonadas, rotas e famintas. Segundo relatos da época, na Vila de Ourém o corregedor chegou a reunir duzentas crianças, que todos dias surgiam nos montes, e as ia alimentando com enorme dificuldade. O mesmo problema aconteceu nas regiões de Leiria e de Tomar. Mas, nestas zonas, o número de infelizes era menor. Em Lisboa, o número de órfãos e de miseráveis, atingiu proporções catastróficas. O médico e célebre historiador, formado na Casa Pia, Simão José da Luz Soriano (1802-1891), na sua obra “Revelações da Minha Vida…” (1860), refere que, nessa altura, havia um grande número crianças abandonadas pelas ruas, e outras perdidas dos seus pais, de que resultou providenciar o governo sobre este ponto, sendo uma das suas providências mandar recolher no seminário da Senhora da Salvação, que então se achava na travessa da Santa Quitéria a Santa Isabel, muitas destas crianças, enquanto se não arranjasse um edifício mais amplo, para nele se instalar uma nova Casa Pia, visto que a antiga, existente no Castelo de São Jorge, havia sido dispersa com a entrada dos franceses em Lisboa em 1807” (op. cit., pág. 9). Depois de muitas diligências, por parte das autoridades, foi escolhido o Mosteiro de Nossa Senhora do Desterro para local das novas instalações da Casa Pia. Em 31 de Agosto de 1811, deu-se a inauguração da moderna Casa Pia. Nesse dia, os noventa e dois órfãos que se encontravam no seminário de Nossa Senhora da Salvação foram transferidos para o Mosteiro do Desterro. No Mosteiro também deram entrada, a 31 de Agosto, mais sete crianças abandonadas, provenientes de Leiria. A emergência do socorro aos desvalidos deu azo a que fossem admitidos órfãos de faixas etárias que contrariavam os regulamentos. Da cidade de Leiria, da Beira Litoral, deu entrada uma criança de 22 anos, clérigo in minoribus; e do seminário de N. S. Salvação, um menino de 18 meses que, provavelmente, foi entregue a uma ama. A nova Casa Pia não se equiparava aos tempos áureos vividos pela instituição no Castelo de São Jorge. As instalações e o equipamento ficavam muito aquém dos existentes no Castelo. O edifício de Desterro tinha muitas deficiências. Fora construído para abrigar os monges de São Bernardo e não para albergar e de dar instrução a várias centenas de crianças. Algumas divisões do Mosteiro eram insalubres e húmidas. Sendo a causa das diversas enfermidades que eclodiram entre órfãos. Algumas delas ficaram cegas ou, em casos extremos, foram vitimadas pela doença. Com menos recursos que a anterior Casa, situada no Castelo de São Jorge, o objectivo principal da instituição passava agora por dar asilo, alimentar e facultar as primeiras letras às crianças e jovens abandonados. Encaminhando-os depois para um ofício ou para uma actividade ligada ao sector primário. Só alguns anos depois é que a instituição abriu aos alunos a possibilidade de frequentarem o ensino secundário. E os mais inteligentes começaram a ser encaminhados para as Universidades do país. Como podemos depreender, os primeiros anos da Casa Pia, no Mosteiro do Desterro, foram bastante difíceis. Após a sua abertura, a 31 de Agosto de 1811, a instituição recebeu crianças e jovens das mais diversas zonas do país e com idades muito heterogéneas. O fólio que temos à mão é bastante elucidativo sobre o vasto espectro de localidades de onde provinham. Podemos referir, entre outras, as zonas de Braga, Guarda, Bragança Castelo Branco, Coimbra, Évora, Miranda do Corvo, Lamego, Covilhã, Porto, Campo Maior, Viseu, Vila Viçosa… Mas o maior fluxo de crianças e jovens aconteceu na área da Estremadura. As idades com que os órfãos entraram para a Casa Pia no Mosteiro do Desterro foram bastante díspares. Como reporta o mapa estatístico, entre os anos de 1811 e 1815, o órfão mais novo existente na instituição, Cândido Umbelino, entrou com 5 anos. Já o mais velho, António José Esteves, entrou para a Casa Pia, no mês de Maio de 1812, com a invulgar idade de 21 anos. Na instituição aprendia o ofício de sapateiro. O mesmo ofício foi o destino de outros jovens que entraram na instituição com dezanove anos. Excepto o aluno António Carlos Menezes, natural de Queluz, que foi cursar Gramática Latina. Do sexo feminino, a órfã mais velha a entrar na instituição também tinha a idade de 21 anos. Chamava-se Josefa Paula de Jesus. E era filha de pais incógnitos. A mais nova, de nome Umbelina, não ultrapassava os 4 anos, e desconheciam-se quem eram os seus progenitores e a sua naturalidade. Na Casa Pia as raparigas eram encaminhadas para aprender a ler, a escrever, a coser, a bordar, a engomar e outros místeres próprios do seu sexo. A folha dá conta da existência, na instituição, de dois órfãos provenientes de Torres Novas. Um rapaz com o nome de António José Duarte, natural de Barqueiros, então termo de Torres Novas, a quem tinham morrido os seus pais. Deu entrada na Casa Pia no dia 11 de Fevereiro de 1814, com a idade de 14 anos. Estava a aprender o ofício de carpinteiro. O outro órfão torrejano era uma menina, de nome Maria Clara. Não tinha pai e entrara aos 11 anos, a 13 de Maio de 1812. No período a que se reporta o fólio, a Real Casa Pia de Lisboa contava com 346 órfãos e 211 órfãs. O que perfaz o número de 557 indivíduos de ambos os sexos. Além destes dados, o mapa indica também o total de alunos que deixaram a instituição entre os anos em causa. Foram 347 rapazes e 42 raparigas. Os motivos apontados são diversos: a grande maioria de alunos saiu da instituição para exercer o ofício que aprenderam na Casa Pia. Em outros casos resultaram da fuga dos alunos da instituição ou por falecimento. Por norma as raparigas, ao contrário dos rapazes, podiam permanecer por tempo inde
terminado na instituição. A sua saída acontecia quando se casavam, iam para criada de servir, ou quando eram entregues aos parentes próximos. Curioso é constatar que no período em análise, não se registou nenhuma fuga de órfãs da instituição. Quanto aos rapazes, foram mais de cinquenta os que fugiram. O mais novo nem sequer tinha a idade de sete anos. O grande número de saídas dos alunos da instituição aconteceu quando foram colocados para exercerem um ofício. Os torrejanos José dos Santos, Luís dos Santos (o 2º com o mesmo nome no mapa), Manuel Lourenço abandonaram a Casa Pia para ingressarem no Arsenal R. do Extº. A saída do primeiro órfão, aconteceu pouco dias depois de entrar na instituição, a 31 de Agosto de 1813. Para a agricultura foram encaminhados, a 15 de Fevereiro de 1813, os órfãos torrejanos, António José Coelho e António Atanásio. Tinham ambos onze anos. O órfão Manuel José de Jesus saiu, a 27 de Janeiro de 1815, para exercer o ofício de aprendiz de Ourives. A sua entrada na instituição deu-se a 12 de Maio de 1812, aos nove anos, por falecimento dos seus progenitores. Já uma das órfãs torrejanas, Joana Vitorina do Ó, teve menor sorte. Veio a falecer a 23 de Setembro de 1814, com a idade de seis anos. A outra órfã, Maria dos Anjos, com oito anos, foi entregue aos seus parentes em 28 de Outubro de 1813. Um mês, após a sua entrada na instituição. Nestes primeiros anos, marcados pela falta de recursos, a principal preocupação da Casa Pia, no Desterro, centrou-se em salvar os inúmeros órfãos de um destino de miséria e opróbrio. No fólio são recorrentes os casos em que os alunos foram direcionados para profissões técnicas e práticas como: alfaiate, sapateiro, ferreiro, latoeiro, cordoeiro, tecelão, militar, caixeiro, ourives, correeiro, etc. Já na sua terceira época, no Mosteiro do Jerónimos, em Belém, a instituição ganharia um novo fôlego. A Real Casa Pia de Lisboa voltaria a firmar-se como a maior instituição educativa no auxílio e protecção dos desvalidos, destacando-se, novamente, no pioneirismo de importantes reformas pedagógicas, científicas e técnicas no país. O que a coloca, no tempo presente, acima de qualquer tentativa de menorização.
Texto escrito com a antiga ortografia.

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