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Torres Novas no Primeiro Governo de Carmona

Instalada a censura (decretos nº 11839 e 12008, de 5 e 9 e Julho de 1927, removido o general Gomes da Costa para os Açores, regressadas as tropas aos quartéis, toma posse o novo governo, presidido pelo general Óscar Carmona, com o Dr. Ribeiro Castanho, no Interior; general Sinel de Cordes, nas Finanças; Professor Manuel Rodrigues Júnior, na Justiça; general Teixeira Botelho, na Instrução; comandante Jaime Afreixo, na Marinha, tenente coronel Passos e Sousa, no Comércio, Dr. Bettencourt Rodrigues, nos Estrangeiros; o comandante João Belo, nas Colónias; o general Alves Pedrosa, na Agricultura. (Rego, Raul, História da república, vol. V, pg. 71). Concluiu Luís Farinha: «Uma parte muito sigificativa dos responsáveis militares pelo movimento que derrubou a República podia não saber como fazer; porém, sabia o que queria: o fim do poder legitimado por eleições livres, a corporatização dos interesses económicos e sociais, a repressão das reivindicações dos sindicatos, a restrição das liberdades, o recurso à censura e ao ostracismo dos intransigentes, acompanhando o movimento conservador de fundo que varria a sociedade portuguesa da época» (Vítimas de Salazar. Estado Novo e Violência Política, coord. João Madeira, A Esfera dos Livros, 1º ed. Janeiro de 2007, cap. 10, O Exército, pg. 252). Afastado um dos blocos militares, o constitucionalista do Almirante Cabeçadas, começa a ganhar terreno o do general Sinel de Cordes e do comandante Filomeno da Câmara, «de pendor monárquico e integralista que visavam implantar um regime anticonstitucional» (Farinha, cit., pg. 255). De facto, até Fevereiro de 1927, pouco se sabe dos partidos democráticos da 1ª República, que nenhuma acção pública concretizam. Exceptua-se a União Liberal Republicana dum Cunha Leal que ainda sonha que o poder lhe venha a ser entregue, após o fracasso dum governo de militares, sem qualquer preparação para os cargos ocupados. Conhece-se uma primeira tentativa de revolta contra a ditadura, em Chaves, em 11 de Setembro, dirigida pelo capitão Alfredo António Chaves, abortada por falta de apoios, à nascença. Em 29 de Novembro, Carmona assume, as funções de chefe de Estado, até às eleições do presidente da República. Manter-se-á nessas funções, até à formação dum novo governo, por ele presidido, em 26 de Agosto de 1927, após ter, como se verá, derrotado a revolta militar de Fevereiro desse ano, dia 3 no Porto, 7 em Lisboa) e a conhecida pela dos Fifis( Fidelino de Figueiredo e Filomeno da Câmara), da extrema-direita fascista, em 12 de Agosto. Vejamos o concelho de Torres Novas, durante o ano de 1926, até o golpe democtrático militar de Fevereiro de 1927. Nesse ano, com se viu, publicava-se o semanário católico O Almonda e o mensário anarquista O Resgate. Ambos, a partir de Julho, começam a sofrer a vigilância da censura, que localmente era exercida por militares da Escola de Equitação de Cavalaria (com este nome aparece ainda em 7 de Julho, quando o director de O Resgate é informado de que o seu periódico foi à censura (Cor. c/ Div. Autoridades, fls.460). O Almonda, em 24 desse mês, informa que «chegou 2ª feira à tarde, o esquadrão de cavalaria da escola que estava em Sacavém, comandado pelo senhor Capitão Botelho, e composto de 10 oficiais, 6 sargentos e 113 cabos e soldados (Cit, nº 365). Só passou de Escola de Equitação de Cavalaria a Escola Prática de Cavalaria, no governo do general Óscar Carmona e não em Janeiro desse ano, como refere Artur Gonçalves (Mosaico Torrejano, pgs 163/164). Ambos periódicos revelam duas visões opostas da vida concelhia no ano de 1926. O Almonda, defensor da política governamental, com uma visão subordinada aos interesses da média burguesia agrária, que se preocupam com a defesa dos seus interesses económicos, como o figo (o álcool) e o vinho, as duas das três produções fundamentais da economia dum concelho maioritariamente rural, onde a industrialização, lanifícios, metalúrgica e transportes, envolvem fundamentalmente as freguesias urbanas e as rurais circundantes (Lapas, Ribeira, Riachos), como também com o escoamento da produção, através do projecto do caminho de ferro de Tomar à Nazaré que, Torres Novas e Alcanena pretendam ser alterado, ligando o Entroncamento à Nazaré, passando por Alcanena. O Resgate, mensário e a partir de julho, quinzenário, procura ser a voz do proletariado rural e industrial, com a difusão das ideias libertárias e anticlericais, crítico não só da comissão executiva municipal, como do silêncio dos republicanos locais, periódico combativo, mas de curta vida, 20 números, entre Março de 1926 e 16 de Fevereiro de 1927, por implicação do seu director, Faustino Bretes, na revolução militar democrática desse mês. Finalmente, a posse da Comissão Administrativa, em 26 de Julho de 1926, aprovada por alvará do Governo Civil de 20 do corrente, constituida pelos seguintes cidadãos: efectivos: Dr. João Martins de Azevedo (Presidente), Mário Ramos de Deus (Vice-Pres.), João Baptista Vassalo Júnior, António Baptista de Oliveira (1º ec.) e Sebastião Vaz Baracho (2º Sec). Substitutos, José Antunes Barroso, Dr. Adelino de Castilho Rodrigues e José Rodrigues. Inicia-se o longo período das comissões municipais nomeadas pelos governadores civis.

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