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Elucubrações sobre as Arábias

Na secção de vídeos da biblioteca, encontrámos um clássico da década de 60: “Lawrence of Arabia”. Tem por tema o envolvimento de T.E. Lawrence na luta contra os turcos otomanos durante a Primeira Guerra. Na nossa juventude, julgávamos que o Médio Oriente era uma das regiões mais atraentes do mundo. Talvez tivéssemos então mais pedras do que miolos na cabeça. E, por o cinema ser como as cerejas, hoje resolvemos escrever sobre uma recente viagem ao Médio Oriente. Os hebreus da diáspora, no findar da Páscoa Judaica e do Yom Kippur, dizem uma oração que termina assim: “no próximo ano em Jerusalém”. Exprime a vontade de retornarem à Terra Prometida. Devido ao desconhecimento dos preceitos talmúdicos e para não ferir suscetibilidades, optamos por não discorrer sobre Israel ou a Palestina. Limitar-nos-emos à Jordânia que, como outras nações árabes, aparece e desaparece. Em 1916, os árabes apoiados por tribos beduínas expulsaram os turcos e criaram o emirado da Transjordânia, protetorado britânico que deu origem ao Reino Hachemita e que depois viria a perder a Cisjordânia. Em 2019, os beduínos continuam a viver no deserto com os seus camelos, ovelhas e cabras. Durante séculos, a paisagem pouco mudou: a mesma areia e os arbustos secos, quase a mesma maneira de viver em tendas. Ainda se vêem mulheres a cardar e fiar a lã. Os homens, esses, tão-pouco modificaram os hábitos. Passam o tempo a beber chá ulta-açucarado, por vezes partilhando uma refeição de carneiro temperado com iogurte e açafrão. Comem com os dedos. Sim, nada se alterou. No entanto, já não são livres para se deslocarem a seu belo prazer. Apesar de terem perdido o direito de atravessar fronteiras em busca de água e pasto para o gado, não arriscam meter-se em política. Al-Karak dos Cruzados e Petra dos Nabateus são atrações turísticas e não só. Em 2016, a primeira foi atacada pelo Daesh (Estado Islâmico). Os jihadistas mataram 14 pessoas. À cautela, ficámos pela última, i.e. Petra, construída entre 500 e 600 anos antes de Jesus Cristo. Em direção a esta “maravilha”, notámos que a luminosidade se movia nas pedras e que, por causa dos jogos de luz e sombra, as fachadas dos montes nunca permaneciam iguais. O caminho seguia um desfiladeiro na montanha cujas paredes pareciam tocar-se e, inesperadamente, deparámos com as edificações entalhadas no gigantesco penhasco cor-de-rosa. Apenas uma grande civilização poderia construir templos e palácios dentro da rocha. Após Petra paragem em Aqaba, a 5 km da Arábia Saudita. Comemos faláfel (salgadinhos de grão-de-bico) e makloubeh (arroz de borrego com beringelas). Junto ao Mar Vermelho, vendedores ambulantes expunham à poeira do deserto bolos e tâmaras. Haverá uma cervejola para não muçulmanos?

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