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De médicos (veterinários) e loucos, todos temos um pouco

Dr.ª Telma Gomes

Foi numa tarde de um quente dia de setembro. Estavas deitado, enroscado, num espaço de terra batida. Vi-te, à meia distância e tentei avaliar. A tua posição corporal, o teu olhar. Estavas curioso, atento. Fui avançando lentamente na tua direção, esperando que não fugisses. Parei. Deixei-te cheirar-me e ambientares-te à minha presença. Agachei-me, estiquei o braço, lentamente. Assim mesmo, de cócoras, aproximei-me de ti, até te poder tocar. É que, supostamente, tu eras um cão agressivo, portanto, nada podia ser brusco, nem rápido. Gostaste das minhas festas, olhaste-me de forma confiante e amistosa. Percebi, ao exame físico, que não estavas bem. As tuas mucosas estavam pálidas, os teus dentes incisivos completamente gastos, os caninos gastos, mas gastos tão perfeita e simetricamente que nem sei se terão sido cortados. Tinhas zonas sem pêlo, feridas. Lá te peguei e seguiste para o canil. Passei as duas semanas seguintes a tratar-te e a conhecer-te. Começaste a comer da minha mão. O teu medo de homens começou a dar lugar à tua brincadeira com o meu pai, que te visitava, por insistência minha. A luta com a trela deu lugar a longos e felizes passeios. Hoje, tens uma casa, uma família, a minha. Muitas vezes, penso no que será a tua história. Como viveste, até àquele dia? Terão sido 7 anos? 10? Todos os dias, me deixas um sorriso no rosto. Todos os dias me dás a tua pata. Todos os dias me mostras que, muitas vezes, não é a nossa história que define o presente. Que, independentemente da idade e do aspeto, todos podemos ter e merecemos uma nova oportunidade. Todos os dias me mostras o valor da gratidão.
Obrigada, Raf.

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