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O 28 de Maio em Torres Novas

O movimento de 28 de Maio não foi inesperado em Torres Novas. Nem entre a burguesia, que convivia nos salões do Clube Torrejano, onde marcavam presença os oficiais da Escola Prática de Cavalaria, à frente da qual se encontrava o coronel Mousinho de Albuquerque, um dos responsáveis pela acção militar, nem nas notícias que correm, de dentro para fora do quartel, pelos seus oficiais, sargentos e soldados, no convívio com a população civil. As notícias chegam pela imprensa diária distribuída pelo comboio, como pelo telégrafo, o principal elemento de informação entre o governo civil e a administração. Se, a 27 de maio, toma posse do cargo da administração do concelho o administrador substituto passado a efectivo, José Antunes Grácio, por suspensão do democrático Gabriel de Medina Camacho, convém não ignorar que Grácio é um dos republicanos locais da esquerda democrática de José Domingos dos Santos, os Pintistas de António Pinto de Magalhães e Almeida, que desde as últimas eleições autárquicas dominam o Centro Republicano 5 de Outubro local, expulsando os republicanos do PRP do grande capitalista Capitão Moreira. Como a Esquerda Democrática participou a favor do movimento militar, percebe-se que este forjasse, dos católicos, aos nacionalistas, do pequeno e médio comércio ao agricultor cerealífero e vitícola local ameaçada de extinção pela duriense, mesmo ao único sindicato organizado, o da associação dos empregados de comércio, como ao funcionalismo público e aos professores, sempre com salários em atraso, a expectativa duma mudança. Era generalizado o cansaço social em que caíra o país com os governos do PRP, frutos dum recenseamento censitário, que se sucediam sem resposta aos novos problemas estruturais surgidos com o pós-guerra. O próprio operariado, pouco organizado localmente, perdera a força, as dissensões entre aqueles conduziram â suspensão dos sindicatos operários fundados em 1920. Apenas dava sinais de vida o grupo anarquista Luz e Liberdade, de Faustino Bretes, que, através do periódico O Rebate mantinha o alerta, mas sem capacidade mobilizadora, em relação ao perigo da ditadura militar.

Não é de estranhar que o movimento militar substituísse a administração civil. Por nomeação de 30 de Maio, Jorge Alcides dos Santos Pedreira, capitão da Escola Prática de Cavalaria, toma posse do cargo da administração, como representante do poder militar. A própria força militar da Escola já se deslocara para Sacavém, onde Mousinho toma posse do comando das tropas aí estacionadas, apoiante, não do almirante Cabeçadas, mas, no momento, do general Gomes da Costa. O movimento não punha a República em causa. Muitos dos militares eram republicanos. O seu conservadorismo militarista defendia a necessidade de tomarem conta do país para o ressurgimento nacional. Não se estranha, neste caso, as posições da Esquerda Democrática, do partido socialista, da Seara Nova, da própria maçonaria, ou da União Liberal Republicana de Cunha Leal, que confiavam em Cabeçadas e nas guarnições que lhe eram fiéis, para manterem a república e as suas instituições, ainda que apoiassem uma ditadura militar capaz de morigerar a situação durante um determinado tempo.

Se só a 5 de junho (nº 358) o Almonda anuncia a revolução, esta desde logo se fizera sentir na vila. A 30 de maio o administrador nomeado avisa o secretário da administração que «nesta data abandono as funções do cargo de Administrador deste Concelho, pelo que V: Exª desse dignará tomar conta desta administração» (Cor. da Adm. c/ várias entidades, Lº 1559,of.209,fls.359). No mesmo dia toma posse, como atrás se viu, o capitão de cavalaria Jorge Alcides Santos Pedreira (id, of.210,fls.360), informando dessa posse o Juiz de direito e as restantes autoridades. (id, of.212, fls. 362). A 2 de Junho, respondia ao Governo Civil: «Tendo chegado extraoficialmente ao meu conhecimento o acto de posse de V. Exª apresso-me a enviar a V: Exª os meus cumprimentos e informa-lo que desempenho interinamente este lugar por ordem do Sr. Comandante Militar de Torres Novas, e em virtude da situação presente, em todo o país.

Completamente alheio a questões políticas, com as quais nunca tive nada, nem nada quero ter, devo dizer a V. Exª que emprego sempre todos os esforços para prestigiar a farda que visto e para ser útil à Pátria, que é de todos nós.

Assim, não tendo eu empenho algum em estar à frente de qualquer cargo público ou administrativo… pode V. Exª contar com a minha lealdade, empenhando-me somente em resolver todos os assuntos dentro do critério de justiça e honestidade» (Cor. Ad C/ Gov.Civil, Lº1611,of.21,fls.390).

Até à demissão do almirante Cabeçadas, substituído por Gomes da Costa, a 18 de Junho, vive-se localmente um ambiente de expectativa, de que o Almonda de 12 de Junho é um exemplo, no seu elogio ao governo militar, de que Cabeçadas era o presidente.

 

antoniomario45@gmail.com 

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