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Um cabeça azul

Gosto quando me entregam animais selvagens feridos ou quando os vou buscar. Será reminiscência da criança que fui, fascinada pelo mundo maravilhoso dos seres vivos com um desejo imenso de compreender a natureza inexplicável. Ou então porque sinto que ao devolver um animal selvagem à natureza ajudo, embora pouco, a manter a integridade do mundo natural. Já me entregaram uma grande variedade de espécies, todas elas inofensivas e pacíficas à exceção de uma ou outra raposa, geneta ou toirão. A maior parte foram aves: águias, falcões, milhafres, abutres, garças, cegonhas… Uma vez até uma cagarra, ave do mar aberto, que apenas vem a terra fazer o ninho. Também corujas, algumas acabadas de sair do ninho e que mais valia deixá-las onde as encontraram porque os pais durante a noite as procuram para tomar conta delas. Felizmente já não são muitas aquelas que me chegam feridas a tiro porque os caçadores parecem estar mais sensibilizados. Por vezes exageram e trazem-me pardais, andorinhas ou andorinhões, que muitas vezes morrem, por assim dizer, nos meus braços. Confesso: se pudesse escolher um poder de super-herói queria ser capaz de falar com os animais para melhor os compreender e lhes pedir ajuda contra os desmandos da Humanidade. Outro dia sucedeu-me um caso curioso: já era noite avançada e telefonaram-me porque um pato passeava numa rua da cidade. Respondi que não é interdito aos patos passear na via pública, mas, por descargo de consciência, meti-me no carro e fui ao local indicado. Passei e tornei a passar na rua assinalada, cheguei a procurar num jardim próximo. Nada, três vezes nada. Quando regressava a casa os faróis dum carro atrás encandearam-me. Ao regular o retrovisor vi a sua imagem refletida: um pato, um real pato ou, como aqui se chama, um cabeça azul!

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