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E eu, também me posso demitir?

Agora parece que é moda, parece andar tudo de cabeça perdida, parece que já se não pode discutir o que quer que seja, porque ninguém ouve ninguém, porque ninguém quer entender os outros, porque o que precisamos é de ir de férias, tão grandes quanto possível, no Algarve ou no estrangeiro, que isto não está para misérias. E se um tipo qualquer pode, eu também posso gozar à grande e à francesa e, no final, se me faltar o dinheiro uso o cartão de crédito. E quando se acabar o plafond deste cartão, pede-se um aumento do limite e logo se verá. Pagar, pagar e cumprir os compromissos, isso é que era bom, pois se os ricos sacaram o que quiseram, faliram e continuam à solta, devemos todos seguir-lhes o exemplo: Gastar, gastar e nunca pensar em pagar. Hoje mais do que nunca “os ricos que paguem a crise” e no final todos veremos onde isto irá parar. É a irresponsabilização geral, com a teoria já gasta de “por onde os outros passarem eu também passarei”. Nunca questiono de quem será a culpa de termos chegado aqui, mas confesso que não sei. Será seguramente de cada um de nós e o futuro, se o houver, vai ser muito escuro e cruel, para milhões de cidadãos. As televisões nacionais afogam-nos com programas vazios de conteúdo, com milhentos sorteios por chamadas de “apenas” um euro, com temas banais ou dramáticos, que atraem muitos milhares de pessoas, para quem a televisão dos 7 canais é o único meio de distração e de informação. Claro que podem mudar de canal, para poderem saber mais notícias do que se passa em Portugal e no mundo, mas na maioria dos casos não têm acesso a outros canais de satélite ou de cabo e os concursos e a música “pimba” servida às carradas, quase sempre em play-back integral e a oferta das dançarinas de perna ao léu continua a ser irresistível para eles. Chego a pensar no que acontecerá a esses largos milhares de pessoas se por acaso acontecer uma calamidade no país ou na região onde residem. Entretidos que estão, serão sempre vítimas por estarem sempre distraídos agarrados aos programas da televisão. Depois, parte do povo ainda trabalha, alguns até trabalham muito e não têm tempo nem para a família, quanto mais para os problemas que nos afetam, quer sociais, quer políticos. Aos domingos temos ainda a missa e o futebol, que continua a ocupar a maioria das discussões. Cultura, livros, música, exposições, palestras, cinema, isso é considerado um luxo, frequentado por uns poucos remadores contra a maré e ostracizados por tudo o que são televisões e imprensa diária. Vou concluir sem fazer quaisquer votos ou apelos à mudança do estado atual da sociedade, mas apenas uma singela pergunta: “E eu, também me posso demitir de pagar impostos?” Não pensem que é chantagem, só estou a fingir…

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