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O Movimento do 28 de Maio de 1926 – Primeiros Passos

Já os primeiros acontecimentos da revolução do 28 de Maio estavam concretizados, quando a informação concelhia a divulga, pela primeira vez, a 5 de Junho (O Almonda nº 358). Antes da influência do acto revolu- cionário a nível concelhio, sintetizemos os seus principais acontecimentos, entre o 28 de Maio e 18 de Junho. É consensual na historiografia portuguesa contemporânea, a posição de Oliveira Marques: «Seria errado, todavia, chamar fascista ao movimento militar do 28 de Maio de 1926. A rebelião fizera-se contra a «corrupção» e a « degradação» da república parlamentar, mais do que contra as instituição do parlamentarismo. A Constituição demo-liberal de 1911 não foi substituída nem expressamente rejeitada até 1933» (Marques, História de Portugal, 2º vol. Palas Editores, 1973, págs. 293). O movimento militar assenta em dois polos: um, o de Lisboa, chefiado pelo comandante Mendes Cabeçadas, apoiado pela União Liberal Republicana de Cunha Leal, pela maior parte da guarnição de Lisboa, com adesões em Coimbra e Braga. O segundo, no Norte, a partir de Braga, da direita mais conservadora, antiliberal, apoiada pelos interesses económicos, a hierarquia militar, assim como os jovens tenentes, divorciados dos partidos da república e dos seus políticos, adeptos da ditadura de Rivera e do fascismo italiano de Mussolini, dirigida pelo general Sinel de Cordes, assente nas guarnições do Norte, Alentejo e Algarve, com ligações a Coimbra e Lisboa (Rosas, Fernando, Hist. De Portugal, 7º vol., O Estado Novo, págs 155/156). Como cabeça do movimento, saído de Braga, a 28, o General Gomes da Costa, escolhido à última hora, inscrito no partido radical e por ele apoiado. O país político republicano da capital apercebe-se de que Mendes Cabeçadas é a sua única defesa ante o grupo do Norte. O próprio, que informara, como seu dirigente o Presidente da República do desenca- dear da revolução no norte, é preso em Santarém, quando se dirigia para o Porto, pelo governo de António Maria da Silva, só libertado no dia seguinte, o que prejudica a sua intervenção na direcção do movimento. Após a demissão do governo, a 29, Bernardino Machado confere-lhe o cargo de presidente do ministério e de todas as pastas, demitindo-se ele próprio a 31. A contestação da direita radical à sua chefia vai ter à sua volta o apoio de todo o espectro liberal defensor da República. No dia da demissão do Presidente da República, Gomes da Costa, já sitiado no Porto, após a derrota do general Sousa Dias, sentindo o apoio da maioria das divisões militares do país, ordena o avanço sobre Lisboa. Altura em que o general Óscar Carmona avança com a 4ª divisão, sediada em Évora, a cercar a capital pelo Sul. É nessa leva que a Escola Prática de Cavalaria, sita em Torres Novas, se põe também em marcha, conduzida pelo seu comandante, o coronal Fernando Luís Mouzinho de Albuquerque. A Confederação Geral do Trabalho, anarco- -sindicalista, abandona a sua neutralidade e ante o perigo «fascista» que se dirigia a Lisboa, resolve avançar com a greve geral revolucionária, mas que na prática não resulta. Cabeçadas manda a 1 de maio, contrariamente ao que prometera ao presidente cessante, fechar o Parlamento e, nas diversas reuniões com os representantes de Gomes da Costa, vai contemporizando e cedendo às exigências da direita radical. A 3 de Junho, em Sacavém, acorda-se, finalmente, o governo de coligação: Mendes Cabeçadas (Presidência e Interior), Gomes da Costa (Guerra e Colónias), Óscar Carmona (Negócios Estrangeiros), comandante Jaime Afreixo (Marinha), Oliveira Salazar (Finanças), Almeida Ribeiro (Justiça), Mendes dos Remédios (Instrução), eng. Ezequiel de Campos (Agricultura e Comércio). Este é demitido a 5, substituído pelo general Alves Pedrosa (Agricultura) e coronel Adolfo César de Pina (Comércio e Comunicações), o que conduz ao abandono do apoio da esquerda republicana a Cabeçadas. Gomes da Costa, a 6, entra em Lisboa. O seu Ministério da Guerra, sob a real direcção de Sinel de Cordes, e com Mouzinho de Albuquerque como chefe do estado- -maior em Sacavém, substitui os comandantes miliares da confiança de Cabeçadas (Raul Rego, História da República, vol. V, págs. 30 e sgs.). Por sua vez, Salazar, que toma posse a 12, demite-se a 17, regressa a Coimbra. Em 14, Gomes da Costa afronta Cabeçadas em Conselho de Ministros com um programa de governo antiliberal, que o comandante recusa, o que leva o general a exigir, a 17, a demissão de Cabeçadas, com as tropas de Sacavém cercando mesmo Lisboa. Cabeçadas recusa todos os apelos dos republicanos e CGT à resistência e, a 18, demite-se. No dia seguinte, Gomes da Costa, empossado presidente do ministério, instala-se em Belém. O que aconteceu em Torres Novas neste período fica para o próximo artigo.

antoniomario45@gmail.com.

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