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O Pintor Carlos Reis nas Exposições do Grémio Artístico

No início da última década do século XIX o panorama artístico português aplaudia com enorme esperança a criação do Grémio Artístico. Formada a partir de diversos elementos, pertencentes ao Grupo do Leão, a nova associação das belas artes pretendia ser um espaço de encontro e de divulgação dos trabalhos efectuados pelas duas gerações de artistas que em torno do Grémio se uniram.
A 27 de Março de 1890, deu-se a primeira reunião do Grémio Artístico para a aprovação dos Estatutos, cujo alvará é de 21 de Agosto de 1890. O seu primeiro artigo é bem claro sobre os objectivos do Grémio: “ [a nova sociedade tinha] por fim promover especialmente a cultura das artes plásticas, e em geral o gosto pelas belas artes e a literatura portuguesa” (“Estatutos e Regulamento Interno do Grémio Artístico”, Typographia Franco-Portuguesa, Lisboa, 1891, pág. 7).
As boas intenções do Grémio esbarrariam com a miséria cultural em que o país vegetava. Nem mesmo a advertência bíblica, inscrita no logótipo do Grémio, “ non in solo pane vivit homo” [Nem só do pão vive o homem], teve o merecido impacto no seio do atávico público português. Pouco instruído para as coisas da arte e do espírito.
Ao fim de nove exposições anuais o Grémio Artístico extinguia-se. Minado por dissensões internas e pelo divórcio das elites endinheiradas (mais interessadas nas obras artísticas estrangeiras) e aviltante pobreza cultural que grassava no país. Para a História da Arte, em Portugal, ficariam os nomes dos artistas e as obras expostas no Grémio Artístico, entre os anos de 1891 e 1899. Muitos deles, figuras ilustres do panorama artístico português, dos séculos XIX e XX.
Logo na primeira exposição, aberta ao público a 15 de Abril de 1891, participariam alguns artistas que, hoje em dia, são facilmente identificáveis por qualquer curioso do mundo da arte. São os casos dos pintores José Malhoa, J. Christino da Silva, Ernesto Condeixa, António Ramalho, o rei D. Carlos I, Silva Porto, Alfredo Roque Gameiro, João Vaz, e do escultor Simões de Almeida. Outros nomes importantes do meio artístico português fariam a sua entrada na galeria dos artistas do Grémio em exposições posteriores.
O pintor torrejano Carlos Reis (1863-1940) só participaria a partir da sexta exposição do Grémio Artístico, em 1896.Um ano após o regresso do torrejano ilustre da capital francesa, onde permaneceu aproximadamente sete anos, a fim de consolidar a sua formação artística.
Nesse ano, Carlos Reis não foi o único pintor de enorme craveira artística a mostrar pela primeira vez os seus quadros no Grémio. A par do torrejano ilustre, também o pintor Columbano Bordalo Pinheiro (1857-1929) dava início à sua colaboração no Grémio Artístico. As obras dos dois novos estreantes foi um dos destaques principais do evento.
No Catálogo da sexta exposição estão referenciadas dez pinturas a óleo de Carlos Reis (do número 113 até ao 122). São elas: “Domingo de primeira comunhão (França) ”, “Sem Família”, “O Cair das Folhas”, “Manhã em Clamart (França) ”, “Um tipo (esboço) [o quadro mais pequeno: 33×23] ”, “Retrato de Mademoiselle de V. F”, (o seu quadro com maiores dimensões: 230x 130), “ Retrato de Minha Mãe” [no pequeno livro sobre Carlos Reis, da Colecção Patrícia (1931), a pintura retratada da mãe do pintor não é a que esteve presente nesta exposição. Também no artigo de Diana Gonçalves Santos sobre a produção artística de Carlos Reis, inserido na “Revista Nova Augusta”, nº 17 de 2007, há enormes equívocos em torno dos retratos da mãe do pintor que tentaremos ao longo do artigo esclarecer], “Vacas nas Pastagens”, “Velho Veneziano” e “Ao cair da tarde”. Na exposição (como é referenciado no catálogo) esteve o quadro a pastel do pintor torrejano, “ Margens do Almonda”, com o número 188.
Das pinturas a óleo, as três últimas obras estavam à venda. Como curiosidade, o catálogo refere que o quadro “ “Sem Família” é propriedade do Rei D. Carlos I e a pintura “Manhã em Clamart (França) ” pertence à Academia de Belas Artes. (Foi uma das obras finais relativas ao seu período como pensionista do Estado).
A maior parte dos críticos classificaria as obras do torrejano ilustre como o que de mais importante e significativo esteve na sexta exposição do Grémio. Carlos Reis sabia como poucos fazer uso da paleta de cores. O mestre torrejano tinha o dom natural de fazer reflectir nas suas telas os encantos de uma luz incandescente e mágica. Onde por meio das vibrações do seu fulgente colorido fazia emergir uma densa espiritualidade poética. Quadros como “ Manhã em Clamart”, “O cair das folhas” e o “ Pôr-do-sol” são obras que comprovam a genialidade do seu autor.
Os elogios ao pintor torrejano Carlos Reis não se limitaram às suas espectaculares paisagens. A exposição deu também a conhecer um grande retratista. Tanto ao nível do retrato formal como em poses mais intimistas. O seu quadro “Retrato de minha mãe” é um exemplo desta última vertente. Com esta pintura Carlos Reis conseguiu criar um admirável pedaço de verdadeira arte. Todo o quadro respira simplicidade e beleza. Nele o mestre torrejano aplicou cores menos vivas e intensas. O tema é muito simples: na pintura vemos uma velhinha (a mãe do pintor), de aspecto doce e terno, sentada num cadeirão. Uma aura de religiosidade resplandece na plácida bonomia do rosto enrugado da velhinha. Apelando ao mais sincero recolhimento do seu observador.
Esta pintura e o outro retrato de sua mãe, executado em 1897, fizeram parte do conjunto de quadros de Carlos Reis que estiveram na Exposição Internacional de Paris, realizada em 1900. (Este facto desconstrói um dos equívocos existentes no artigo de Diana Gonçalves dos Santos para a “Revista Nova Augusta”, nº 17 de 2005: o primeiro retrato da mãe de Carlos Reis não figurou na Exposição de Dresden, de 1901, e sim na de 1900, em Paris! No catálogo oficial ilustrado da Exposição a reprodução da sua imagem encontra-se na página número 205, e está catalogada, na página 317, com o número 78).
(Continua)
Vitor Antunes
Texto escrito com a antiga ortografia

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