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A selva urbana

A utilização do glifosato tem causado polémica. Receio que a utilização desta substância química possa apresentar efeitos colaterais porventura ainda não completamente avaliados com repercussões, imprevisíveis e irremediáveis, no futuro. Lembro-mo do livro Primavera Silenciosa, clássico de 1962 em que Rachel Carson, uma bióloga norte americana, alertava para os efeitos nocivos do DDT. Não se acreditaram nela e só mais tarde, quando se detetaram vestígios desse herbicida que foi considerado milagroso, no leite materno, lhe deram razão. Mas a tecnologia, o progresso científico, os cuidados de saúde, são hoje muito diferentes e não é conclusivo que o glifosato cause danos nos humanos ou nos animais, nomeadamente que seja cancerígeno. Acredito, embora não goste, que a sua utilização pode ser um risco controlado, tanto mais que não vejo outras alternativas viáveis: queimar as ervas não, atendendo ao risco de fogos; meios mecânicos considerando o possível arremesso de projéteis que podem ferir as pessoas ou partir vidros, tão pouco; jardineiros a sacharem e arrancarem as ervas manualmente, não me parece? Qual a solução? Confesso que não sei! Acho exagerado esta histeria coletiva contra as ervas daninhas, a limitada visão antropocêntrica de que natureza dentro das cidades tem de ser controlada custe o que custar. Se gosto de ver a soagem, o funcho, a tágueda, a chicória, a urtiga, a malva, a labaça, o cardo e as dezenas de outras plantas silvestres invadindo lancis e passeios? Causa-me um sentimento contraditório: dum lado o desejo de espaços sem as ervas ditas daninhas, ordenados; do outro uma imensa satisfação ao ver a natureza, resiliente malgrado todos os nossos esforços, a trabalhar impercetivelmente transformando a cidade como que numa selva urbana.

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