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A imprensa Anarquista em Torres Novas

A importância de Faustino Bretes na criação dos sindicatos operários, a partir da década de 20, assim como na difusão das ideias anarco-sindicalistas no concelho Torres Novas, é indesmentível. Edgar Rodrigues, em A Resistência Anarco-Sindicalista à Ditadura 1922-1939, Lisboa, Sementeira, 1981, pág. 184, traça-lhe a biografia, que Francisco Canais Rocha segue na sua obra Para a História do Movimento Operário em Torres
Novas, págs. 184/185. Participou nas comemorações do 1º de Maio em Torres Novas e, em 1923, fundara localmente o Grupo Anarquista Revolucionário Luz e Liberdade. Também em Outubro desse ano participa no 1º Congresso do Partido Comunista Português, fundado dois anos antes, como se verifica na lista dos membros do PCP de 1921-1926, publicada por José Pacheco Pereira, «O PCP na 1ª República, Membros e Direcção», em «Estudos sobre o Comunismo, nº 1, anexo 1, pág. 16». Em 1926, devido a pertinaz doença, recebe o apoio do
movimento anarquista nacional (vide autores citados). Não obsta que, em Março desse mesmo ano, saia a lume o primeiro número do mensário O Resgate, de que é seu redactor principal, aparecendo como editor Francisco da Silva Nuno. Propriedade do grupo Editor de o Resgate. Redacção e Administração, Torres Novas, Portugal. Mas a composição e impressão é feita na Casa do Povo da Covilhã. O periódico é destinado
fundamentalmente a assinatura, sendo o preço da série de 5 números (1$50), e a venda avulso ao preço de $30 centavos. Apresenta-se, no nº 1, com 4 páginas, medida 30x22cms., 1º página a duas colunas, as restantes a três. Deste periódico serão publicados 20 números, com término em 16 de Fevereiro de 1927. Até à revolução do 28 de Maio, são publicados três números. A partir do nº 6, datado de 15 de Julho de 1926, passa a quinzenário, até ser suspenso na data atrás citada, em 1927. Na apresentação, publica uma saudação internacionalista a
todos os operários do mundo e anuncia os objectivos do mensário, que se resumem à defesa dos interesses das classes trabalhadoras. No 2º, nº publicado em Abril, F. B. comenta (2ª pág): «Esgotaram-se rapidamente todos os seus números, pelo que, mau grado nosso, nos vimos impossibilitados de satisfazer os enormes pedidos que depois disso nos foram feitos… Temos continuado a receber auxílio de vários camaradas e amigos de o Resgate, o que atesta a grande e nobre vontade de que os trabalhadores desta incomensurável região tenham um porta-voz que defenda os seus legítimos interesses e difunda, quanto possível, a propaganda Acrata e Libertadora… Mas na 4ª página o anúncio duma próxima possível revolução obriga a uma tomada de posição: «Já há algumas semanas que se vem anunciando a eclosão dum movimento militarista de carácter conservador e ultramontano, o qual, segundo nos diz a imprensa, será chefiado pelos mesmos elementos que foram derrotados no 18 de Abril e no 19 de Julho do pretérito ano. Em face desta conjuntura o proletariado não deve alhear-se do que se está tramando nos bastidores reacionários e não só o proletariado como todos os homens amantes da liberdade, pois o execrando movimento que se projecta e de que publicamente os seus chefes têm feito a apologia, não será apenas uma Sidonada, mas uma ditadura sanguinária e despótica, uma ditadura Riverista ou Mussolinica» E identifica os ditadores: Filomeno, Cabeçadas, Cunhas Leais e quejandos, assim como os seus objectivos: «cercear as poucas liberdades individuais ora existentes; suprimir a liberdade de reunião, amordaçar a imprensa que não ler pela sua asquerosa cartilha, deportar todos os que lhe forem desafectos; instaurar a pena de morte; encerrar as Associações operárias e demais organismos de carácter liberal e avançado; rasgar a lei que rege o horário de trabalho, em suma: aspiram a um governo de terror e ódio…». Apela aos trabalhadores e a «todos os ho
mens que desejem ser livres» a união, relegando «por agora as dissidências do passado». E na 4ª página, publica os apoios ao jornal, verificando-se a maioria situar-se em Riachos e na Golegã, o que mostra a influência da sua acção no operariado rural. O nº 3, último publicado na primeira república portuguesa democrática, preenche toda a primeira página com a apologia do 1º de Maio, começando pela narrativa da sua implementação histórica em 1886; seguido de um apelo à sua comemoração, devendo os trabalhadores nesse dia abandonar o trabalho e participar nos seus comícios, sessões e conferências…» Na terceira página denuncia a inépcia da Câmara na defesa da saúde das populações. «Em Torres Novas a doença é a tuberculose. E podemos afirmar sem receio de desmentido que essa terrível doença que aqui faz mais estragos, ceifando vidas moças e adolescentes, tem como principais factores a falta de higiene nas ruas, a falta de limpeza e sujidade das mesmas e mui principalmente a «pipa», que é a maior vergonha da nossa época». E acusa (3ª pág.), a burguesia local de tentar acabar com a praça dos trabalhadores durante a semana (da 2ª a sábado) a fim de forçar os rurais a mendigar trabalho durante os dias de Domingo. A partir de Junho, O Resgate vai encontrar um novo elemento, que o condiciona e mais tarde, o elimina: a censura. Assim como a prisão de Faustino Bretes, nesse mesmo ano, por participação na revolução do 3 de Fevereiro de 1927.

antoniomario45@gmail.com

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