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O 1º Campeonato de Cavalo de Guerra foi em Torres Novas

Durante vários e significativos anos da nossa História, Torres Novas foi a casa da Escola Práti- ca de Cavalaria (1902-1957). Antes da sua vinda, nos finais do mês de Janeiro de 1902, a reconhecida Unidade militar esteve aquartelada em Vila Viçosa. Em Torres Novas, a Escola Prática de Cavalaria ganharia um outro fôlego. A proximidade da Unidade Torrejana dos centros de decisão política possibilitou a sua reestruturação, permitindo a criação de novas valências e o progresso dos seus quadros e alunos. Os novos desafios colocados pela sociedade emergente ditaram as profundas alterações efectuadas na reconhecida arma militar. Dotando-a de meios humanos e equipamentos necessários para cumprir eficazmente as delicadas missões para que depois seria chamada, quer em tempo de paz ou de guerra. Neste espírito de adaptação da Unidade militar, às complexas exigências que se avizinhavam, enquadra-se a criação do Campeonato de Cavalo de Guerra. A importante medida foi determinada pela Ordem do Exército nº 2, 1ª série, de 20 de Fevereiro de 1904, e regulamentada pela portaria de 20 de Maio desse ano. Tinha como objectivos principais o desenvolvimento da instrução da arte equestre e o aperfeiçoamento das raças cavalares para fins militares. Nesta altura, era evidente a pobreza de qualidade e o reduzido número de solípedes existentes no país. Por outro lado, havia, por parte da comissão do Exército, dúvidas quanto ao tipo de cavalo de guerra a optar para produção. Apesar de alguns especialistas militares aponta- rem o tipo de cavalo, Alter-árabe, como a escolha acertada. As provas do Campeonato de Cavalo de Guerra poderiam ser a resposta a estes problemas. (Na primeira competição não participaria nenhum cavalo da raça Alter-árabe).
Por ordem real a Escola Prática de Cavalaria de Torres Novas foi o sítio escolhido para organizar o Campeonato de Cavalo de Guerra. A primeira competição decorreu nos dias 26, 27 e 28 de Agosto de 1904. O próprio rei
D. Carlos (1863-1908) apadrinhou o evento, acompanhado pelo filho primogénito, o príncipe Luís Filipe (1887-1908), e do Ministro da Guerra, Luís Augusto Pimentel Pinto (1843-1913). No Campeonato inscreveram-se os dez representantes dos regimentos de Cavalaria existentes em Portugal. A sua presença era obrigatória. Para os outros regimentos ou unidades montadas a participação era facultativa. Destas armas militares apenas compareceram a Escola Prática de Cavalaria, através do tenente Carvalho da Costa, e o grupo de Artilharia a Cavalo, pelo tenente Hintze Ribeiro. Antes do início da competição, a 25 de Agosto, adoeceria o representante de Cavalaria nº 5, o tenente Abílio de Almeida. A proximidade da 1ª prova do Campeonato, dia 26 de Agosto, invia- bilizou a sua substituição por um outro campeão do referido regimento. A idade dos cavalos variava entre os cinco e os nove anos e meio.
Como nota saliente: três solípedes participantes no Campeonato foram comprados na Golegã pela Comissão de Remonta. Tendo a particularidade de o cavalo vencedor ser proveniente desta vila ribatejana. Na primeira prova do Campeonato de Cavalo de Guerra parti- ciparam onze concorrentes. A prova consistiu na apresentação dos cavalos e exames destes por parte do júri, constituído pelo general, Conde de Bonfim; o coronel de Cavalaria nº 4, Mouzinho de Albuquerque; o coronel de Cavalaria nº 2, Costa Cabral; o tenente-coronel Alberto Ilharco, Comandante da Escola Prática de Cavalaria; e o major Fernando Maia, lente da Escola do Exército. Nem todos os concorrentes passaram na primeira prova. O alferes Gomes Teixeira, da Cavalaria nº 9, foi excluído pelo facto do cavalo apresentado no concurso não estar devidamente ensinado. Isto explica-se porque o referido oficial, alguns dias antes da prova, substituiu o seu cavalo de praça, por um outro, de fileira, que não tivera tempo de preparar para as exigências da competição. Nesse dia realizaram-se outras competições militares. Com destaque para a prova de telegrafia óptica, em que estiveram envolvidos aspirantes e sargentos da Unidade. No segundo dia, a 27 de Agosto, a prova do Campeonato de Cavalo de Guerra teve início às 4 horas e 30 minutos. No percurso de 56 quilómetros, os concorrentes tinham que efectuar a marcha com a velocidade máxima de 12 quilómetros e mínima de 10 quilómetros. Os grupos partiriam escalonados de 5 em 5 minutos. No trajecto havia seis postos de revisão onde os participantes de- viam visar as suas guias. O itine- rário da prova estendia-se pelas estradas de Torres Novas, Entroncamento, Asseiceira, até Tomar (26 quilómetros). Da cidade nabantina os cavaleiros tinham de passar por Porto de Lage, Quinta de Vargos, Ponte de Finados, Ponte Pequena e Hipódromo do Entroncamento, onde estava situada a meta. No final era-lhes exigido que executassem, perante o júri, 250 metros a trote e 150 metros a galope. Nesse dia fez-se também o jogo da rosa, formado por dois grupos rivais que tentavam arrancar mutuamente os laços que pendiam nos ombros dos cavaleiros. No dia 28 de Agosto, aspirantes e sargentos, efectuaram, de manhã, os exercícios de telegrafia eléctrica e óptica, entre a Escola Prática de Cavalaria e o sítio da Forca, na serra de Aire. De seguida, o rei D. Carlos e o príncipe Luís Filipe assistiram à missa na igreja do Carmo, em Torres Novas. Para depois do almoço rumarem ao hipódromo do Entroncamento, a fim de assistirem à última prova do Campeonato de Cavalo de Guerra. Não compareceram no hipódromo o alferes de Cavalaria nº 1, Gama Lobo, por ter adoecido antes da prova, e o alferes de Cavalaria nº 10, Sepúlveda Veloso, por ver o seu cavalo impossibilitado de competir. Os sete participantes que resta- vam no Campeonato foram obrigados a executarem, indivi- dualmente, no hipódromo do Entroncamento, um percurso de 800 metros, em galope de 400 metros por minuto, transpondo os vários obstáculos colocados no recinto. Em cada um dos obs- táculos encontrava-se um oficial nomeado para fiscalizar a execução dos saltos e dar conta das faltas cometidas pelos participantes. As faltas eram sancionadas com a perda de pontos ou, em última instância, com a desqualificação do cavaleiro. Esta medida sancionatória foi aplicada ao alferes de Cavalaria nº 9,
D. Luís de Castro. O alferes de Cavalaria António de Passos Calado foi o vencedor do 1º Campeonato de Cavalo de Guerra. (Antes da prova, alguns oficiais do seu regimentos e amigos aconselharam-no a desistir, porque consideravam o cavalo do alferes António Calado uma autêntica pileca. E, por esse motivo, iria fazer uma má figura entre os outros oficiais competidores). Em 2º lugar, exaequo, ficaram o tenente Silveira Ramos, da Cavalaria nº 4 e o tenente Carvalho da Costa da Escola Prática de Cavalaria, de Torres Novas. Em 3º lugar o tenente Hintze Ribeiro, do Grupo de Artilharia a Cavalo. No 4º lugar ficou o tenente Costa Gomes, da Cavalaria nº 3. Em 5º lugar ficou o alferes de Cavalaria nº 6, Teixeira Campos, e no último lugar o alferes de Cavalaria nº 7, Liz e Cunha. O tenente Silveira Ramos ganhou a Taça de El-Rei na prova das corridas. A maior parte dos intervenientes congratularam-se pelo enorme sucesso do Campeonato de Cavalo de Guerra, realizado em Torres Novas. Foi claro o assentimento de todos para a continuidade deste tipo de competição, que teria um papel crucial no desenvolvimento da nossa arte equestre e no reconhecido brio profissional adstrito aos militares da arma de Cavalaria.
Texto escrito com a antiga ortografia

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