Home > Crónicas > A arte de furtar

A arte de furtar

Há na literatura Portuguesa uma obra panfletária, do século XVII, cuja autoria se discute e alguns atribuem-na ao padre António Vieira. O livro diz-nos das pequenas e grandes roubalheiras que flagelam toda a sociedade portuguesa mas são sobretudo os altos funcionários que se pretende desmascarar na sua refinada arte de roubar.

E já no século anterior em pleno apogeu da Expansão, Diogo do Couto critica a rapinância organizada que atinge toda a administração dos portugueses no Oriente que queriam enriquecer muito e depressa. Vários são os testemunhos que criticam esta tendência que afunda Portugal «no gosto da cobiça» (Camões). O cheiro da canela que o Reino despovoa, segundo Sá de Miranda, não é apenas dos dias de hoje.

O fenómeno da corrupção e do suborno, a procura ilícita do enriquecimento que leva os homens a comerem-se uns aos outros (Vieira), é transversal a toda a nossa história.

Capazes de grandes feitos, somos também obreiros da mesquinhez. Aí está o Brasil, que deixámos algures nas paragens da América do Sul, ao mesmo tempo tão grande e tão pequeno. Das especiarias das Índias e do ouro do Brasil quanto chegou aos cofres da nação e não ficou no bolso dos funcionários?

Portanto não são só de agora os casos de corrupção e de compadrio que os órgãos de comunicação vão noticiando que minam a nossa sociedade. Talvez o que distingue o presente do passado é que alguns nomes vão sendo apontados e alguns casos denunciados. Mas perguntamos se justiça será feita ou tudo ficará em “águas de bacalhau”. E para nosso consolo triste, esta coisa da corrupção, talvez não seja uma característica do nosso povo mas uma tendência da humanidade.

Onde falta a consciência, há no homem uma atração para a Arte de Furtar.

Deixe-nos o seu comentário pelo facebook