1926 – Janeiro/Maio

O tempo da 1ª República escoa-se. Sabemo-lo nós, no presente, mas na documentação que nos chega, quer através de O Almonda, quer do Executivo Municipal, quer da Administração Concelhia, quer das diversas associações e colectividades existentes, o que fica no ar é um mal-estar social contra o governo do partido democrático, levado a efeito pelo Partido Nacionalista, que no seu Congresso se desentende e vem a ser criticado n’O Almonda (nº 346, 13/3), e um certo avivar do desejo de regresso à monarquia, pelas duas missas mandadas rezar pela alma de D. Carlos e do príncipe Filipe, uma em S. Pedro, pelo Dr. João Nunes Mexia (S. Gião), e outra na próxima 5ª feira, no Salva- dor, por um grupo de monárquicos que o jornal não identifica, o que só por si demonstra divisão nas hostes locais (O Almonda nº 341, 6/2). Nota-se alguma mudança na política da administração local. Se o executivo e o senado camarário são de maioria católica-nacionalista e de minoria da esquerda democrática, o administrador do Concelho, Dr. Medina Camacho, represen- tante do partido democrático, sentindo que os derrotados o condenam por não ter exerci- do a sua influência através dos regedores nas freguesias, ausenta-se, ficando a administração entregue, nas suas ausências, ao chefe de secretaria da administração, António Arez de Vasconcelos (filho do chefe de secretaria da Câmara, Artur Gonçalves), que responde burocraticamente pela mesma. De facto, o administrador substituto, José Antunes Grácio só vem a tomar posse do cargo a 29 de Maio, «visto o Sr. Medina Camacho se encontrar suspenso». (Idem, nº 357, 29/5). Mudança também na intervenção dos políticos locais na Junta Geral do Distrito, de tendência democrática, mas onde na Comissão Executiva vamos encontrar a figura do então director de O Almonda e grande influente católico concelhio, o Dr. Carlos de Azevedo Mendes e no respectivo Senado, como vice-presidente, o Dr. António Pinto de Magalhães e Almeida e como 2º secretário, o médi- co nacionalista Dr. Vicente Vinagre, o que prenunciava, não fosse a revolução do 28 de Maio, uma certa influência das elites políticas torrejanas. (idem, nº 339,23/1). Também de registo a notícia, em Março, «de que à esquerda democrática aderiram os amigos do Dr. António Pinto, conhecidos pelos Pintistas». No entanto, o presidente do Senado da Câmara Municipal, Dr. Augusto Lopes Mendes e Silva, não aderiu, ficando independente (Idem, nº 345, 6/3). Em relação ao congresso nacionalista, realizado a 6, 7 e 8, os nacionalistas concelhios continuam fiéis ao Diretório, lamentando as divisões. (Idem, nº 346,13/3).
Neste período, ainda um novo alento, o da reactivação da Comissão pró-monumento aos mortos da Grande Guerra, constituída por uma grande Comissão de Honra, que elegeu uma Comissão Administrativa, instituída a 20 de Junho de 1925, composta pelo Dr. Carlos de Azevedo Mendes, Dr. Augusto Moita de Deus,
Dr. Augusto de Azevedo Mendes, José da Silva Beja, António Casimiro Serrão, António César de Oliveira (tesoureiro) e Artur Gonçalves (secretário) (Gonçalves, Artur, Memórias de Torres Novas, págs. 198/199), que toma medidas de curto prazo para angariar fundos para a instalação do referido monumento. (idem, nº 351, 17/4).
Por sua vez, a actual direcção de O Almonda, surgida no final de 1925, com uma orientação católica muito vincada, procu- ra publicitar-se e irradiar mais para as freguesias rurais e concelho de Alcanena. Daí, que numa campanha de publicidade, promova uma visita às suas instalações dos padres que nelas residem: António Mendes, da Zibreira, Manuel Caetano, de Alcanena; Herculano Moreno, dos Soudos, José Augusto da Costa, do Pafarrão, Joaquim da Silva Alberto, da Brogueira, Rosa Ferreira, do Alqueidão. (Idem, nº 344, 27/2). Também surge uma nova secção com notícias, na maioria religiosas, de Vila Nova de Ourém. Vejamos o que se passa no sector associativo, em que na opinião dum articulista de O Almonda «não tem ambiente possível e infelizmente de facto confirma-se». E apresenta como excepção, o sector musical, indicando o órfeão, o grupo musical, a nova banda operária, as bandas das freguesias (Idem, nº 338, 16/1/1926). Visão pouco consistente, já que se encontram em funcionamento na vila, no desporto, o União Futebol Clube Torrejano; no sector assistencial o Montepio de Nossa Senhora da Nazaré e a Misericórdia de Torres Novas; no sector sindical, a Associação de Classe dos Caixeiros, o Sindicato Único dos Operários da Indústria e o Sindicato Único Metalúrgico, ambos fundados em 1924, com sede na rua de S. Pedro (Rocha, F. Canais, Para a Hist. Do Mov. Operário em Torres Novas, cit, 182); no sector do patronato, a Associação dos Comerciantes; no sector católico, a Juventude Católica Torrejana, (Bicho, J. R. A Igreja em Torres Novas no séc. XX, págs. 315/319); além das colectividades das freguesias rurais. No jornalismo surge o primeiro número, em Março de 1926, um jornal anarquista, mensário, O Resgate, que tinha como redactor principal Faustino Bretes e editor Francisco da Silva Nuno, que se apresenta como defensor dos oprimidos e de propaganda libertina. Deixemos o sector associativo e a imprensa anarquista para próximos artigos.

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