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Sexta-feira, 31 de maio 1996

“Num beijo saberás tudo o que não disse” Pablo Neruda.

Naquele dia, o beijo ficou por dar. E esse beijo não dado martirizou-me durante anos a fio. Longos anos a fio! Uns dias, de uma forma mais consciente do que noutros. Mas sempre de uma forma tão violenta que qualquer maremoto, terramoto ou mesmo sismo de magnitude 7.5 na escala de Richter é coisa pouca. Tudo isto somente porque no nosso consciente, o amanhã existe sempre. E os nossos farão sempre parte desse mesmo amanhã. O exame de código foi na manhã desse mesmo dia em Santarém. Yupi! Passei! De regresso a Riachos numa felicidade só, almocei num instantinho, e preparei tudo para sair para cantar. Ainda demoro a fazê-lo, pensei. É que comecei a cantar há pouco mais de dois dias.
Ouço buzinar… é tempo de ir. Naquele dia, ri muito. Ri muito e privei pela primeira vez com o cantor José Cid e até cantamos juntos. Foi extraordinário! E para rematar, à noite, até comi ostras! Vinha carregadinha de “Coisas” para contar aos meus pais. Relatos de um dia e de uma noite que, jamais pensei viver nos dias da minha vida … e em especial de dizer ao meu pai que comi ostras pela primeira vez! Cheguei era já alta madrugada! E a luz do corredor de casa estava acesa. E… ainda ninguém dormia. E o meu pai não estava. Aquele dia até poderia viver na minha memória como o Dia Perfeito. Mas não vive. Não vive, apenas porque TUDO ISTO EXISTE, TUDO ISTO É TRISTE (malfadado dia), TUDO ISTO são COISAS e CENAS & CENAS e COISAS.

 

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