Home > Crónicas > Roubo no Quartel de Torres Novas

Roubo no Quartel de Torres Novas

É bem conhecido do público o recente caso de Tancos, em que foram desviadas grandes quantidades de material de guerra para supostamente serem vendidas a organizações criminosas. Muita coisa está por esclarecer sobre o furto, que manchou a reputação de uma das instituições basilares do país.
Este reprovável episódio não é um caso isolado na História Militar portuguesa. Se nos dermos ao trabalho de pesquisar, nos arquivos históricos da justiça militar, é bem provável depararmos com situações de crimes semelhantes. Em outros casos de delito, os fortes indícios de culpa, não deram em nada. Tendo como consequência a absolvição dos supostos prevaricadores.
Na vila de Torres Novas, no final do século XIX, sucedeu uma situação desta natureza, em que estiveram implicados alguns militares do Regimento da Artilharia nº 2.
Esta unidade militar esteve aquartelada em Torres Novas antes da vinda, em 1902, da Escola Prática de Cavalaria de Vila Viçosa. A presença do Regimento de Artilharia nº 2, em Torres Novas, abrangeu o período entre 1884 e 25 de Janeiro de 1902.
No Regimento chegaram a prestar serviço militar altas individualidades do país. Um importante Presidente da Primeira República, assassinado durante o seu mandato, o Dr. Sidónio Pais (1872-1918), fez parte dos quadros da então reconhecida instituição militar torrejana. Esteve integrado na unidade desde a primeira quinzena de Janeiro do ano de 1893 até ao dia 23 de Novembro de 1894. (A historiadora Maria Alice Samara, na sua fotobiografia de Sidónio Pais (2002),refere, erradamente, a localidade de Vendas Novas. No referido lugar esteve, sim, sediada a Escola Prática de Artilharia).
Durante o aquartelamento da Artilharia nº 2, em Torres Novas, há notícia de um relato a propósito de um pretenso roubo de material bélico. O singular episódio encontra-se descrito numa pequena brochura, dada à estampa pelo defensor oficioso de um dos culpados, o major António Marinho Barros. No seu testemunho, o oficial do Estado-maior da Infantaria, tece duras críticas ao comportamento do então Administrador do Concelho, Pedro Maria Dantas Pereira (1826-1905). Caracterizando a sua acção no processo como reveladora de uma “ política provinciana reles e pífia” (“A Pólvora encontrada na Cortiça junto a Torres Novas”, 1892, pág. 3).
O caso, acontecido em 1892, teve os seguintes contornos: ao conhecimento do Administrador do concelho chegou um aviso secreto dando conta do transporte de dois caixotes, com armamento militar ou pólvora, conduzidos pelo carro do Dr. Pedro Correia Monteiro Gorjão, e que foram depositados numa casa situada na Cortiça, a três quilómetros da vila. (Trata-se da designada Quinta de Vale da Cortiça, próxima do Alvorão).Segundo testemunha ocular, na operação estiveram envolvidos um coronel vestido à paisana e um impedido de um oficial conhecido. A denúncia frisava, ainda, que havia o projecto de remover os caixotes nesse dia, 23 [de Junho], de noite. Face à gravidade do caso, o Administrador do concelho levantou o respectivo auto de investigação, no sentido de apurar os factos e identificar os presumíveis culpados.
Ao ter das testemunhas a confirmação das informações sobre o roubo, o Administrador, Pedro Dantas Pereira, requisitou junto do comandante do corpo um piquete de confiança para guardar a casa onde estavam os caixotes com o material bélico. Em seguida, dirigiu-se ao quartel com as testemunhas para se reconhecer entre os impedidos o que fora depositar a pólvora à Cortiça. As provas apontaram para o impedido do capitão Cardoso. Mas quanto ao coronel à paisana, as testemunhas não conseguiram identificá-lo. Logo ali, o impedido ficou detido no quartel à ordem da autoridade judicial. Posto isto, o Administrador do concelho e os representantes judiciais encaminharam-se em direcção à casa na Cortiça para saberem o que na verdade havia dentro dos referidos caixotes. Verificou-se então que cada um deles continha duzentos e trinta cartuxos de pólvora de artilharia com quinhentos gramas deste preparado. Entretanto, o juiz de direito da vila mandou um ofício através do ajudante de Artilharia nº 2, Eduardo Sarmento, com a ordem para que os caixotes ficassem à guarda do Administrador, para depois os entregar no quartel militar. O representante da edilidade concelhia, Pedro Dantas Pereira recusou essa responsabilidade, fazendo saber que a direcção do processo já estava sob a alçada do poder judicial. A pólvora foi então entregue pela entidade judicial. Muita mossa haveria de provocar as infundadas averiguações levantadas pelo Administrador do concelho.
Em consequência do auto levantado pela justiça ordinária de Torres Novas foram mandados apresentar em Lisboa, com a ordem de prisão com homenagem, os seguintes oficiais da Artilharia nº 2: coronel Azevedo; tenente-coronel Neves; major Valle; Capitão Cardoso; tenente Mendonça; e o almoxarife Brusco. O capitão Alfredo Macedo Rocha, defendido pelo autor da brochura, seria encerrado na prisão do Castelo de S. Jorge, acusado dos crimes de falsidade e infidelidade no serviço militar. Tudo isto ao arrepio do código civil e, principalmente, do código militar. Nem sequer se teve em atenção, como prova de inocência, a idoneidade dos oficiais. Com carreiras longas no exército e uma biografia militar distinta e honrosa.
Três explicações foram então aventadas sobre o fim a que se destinava a pólvora roubada por um oficial: a primeira versão dava conta que era para ser remetida para uma pedreira, em Viseu. Outro boato alegava que era uma pólvora preparada por um oficial para experiências e, por essa razão, não podia estar no quartel. A terceira versão confirmar-se-ia como a verdadeira: os 460 cartuxos de pólvora de salva para peça de 8 c, eram sobras de munições resultantes dos exercícios militares efectuados para o lado de Pernes, em que estiveram envolvidas várias unidades militares, entre as quais a Artilharia nº 2, de Torres Novas.
No final dos mencionados exercícios, sem que houvesse a devida avaliação da quantidade de material excedente, os cartuxos foram retirados pela bateria da artilharia 2, para o paiol do quartel de Torres Novas. O objectivo passava por aproveitar as sobras do cartuchame na instrução do regimento para a regulação de tiro e aplicação de petardos. A maior parte dos militares envolvidos na operação estava ao corrente do sucedido. Só que, por razões extemporâneas, os caixotes nunca foram integrados no inventário do material bélico da unidade militar torrejana.
As caixas permaneceriam perto de um ano, no paiol, até ao momento em que se soube que o inspector militar do material de guerra vinha a Torres Novas. Um grupo de oficiais do regimento acordaram retirar provisoriamente os caixotes do quartel para que a inspecção não detectasse o material bélico excedente ao escrutinar os registos do paiol do regimento. Os caixotes foram então transportados pelas 16 horas, do dia 10 de Junho, para casa do capitão Alfredo Macedo Rocha. O mesmo oficial ficou surpreendido pelas grandes dimensões dos caixotes. Conservou-os em sua casa, até às 16,30 horas do dia 12 de Junho, para depois as levar para o sítio da Cortiça. Toda a manobra foi executada à luz do dia, sem intenções de camuflar a operação.
A 22 de Junho, alguns oficiais do regimento tomaram conhecimento da denúncia efectuada ao administrador do concelho, Pedro Maria Dantas Pereira. Face à gravidade do sucedido, o Capitão Cardoso e o tenente Oom, do regimento torrejano explicaram ao representante da edilidade as circunstâncias que estavam por detrás da presença da pólvora no sítio da Cortiça. Primeiramente, o administrador aceitou a explicação dos oficiais. Apenas lhes solicitava uma declaração do comandante do regimento. Mas o seu propósito revelou-se contrário ao que tinha firmado, remetendo o auto de denúncia às autoridades judiciais, antes dos oficiais terem tempo de comunicar-lhe qualquer resposta.
Levados a tribunal, os réus tiveram que demonstrar a sua inocência perante um conselho de altos dignitários. A defesa pronunciada pelo major de Infantaria, António Marinho Barros, a favor do réu, o capitão de artilharia nº 2, Alfredo Rocha, resultou na sua absolvição, por unanimidade. As acusações feitas no auto judicial, levantado pelo administrador, aos militares do Regimento de Artilharia nº 2, revelaram-se infundadas. O mesmo cremos nós e a justiça não sucedeu em Tancos.

Deixe-nos o seu comentário pelo facebook