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De médicos (veteriários) e loucos, todos temos um pouco

Aprender com os animais

Por: Telma Gomes

Tudo tem o seu tempo. Utilizamos as horas, os minutos e os segundos para o quantificarmos, mas quantas vezes damos por nós percecionando algo diferente daquilo que o calendário diz? Esta é a nossa consciência, e isto é algo que nos torna humanos. Terão os animais a mesma perceção de tempo que nós? À sua maneira, conhecem e identificam rotinas: sabem quando o dono chega a casa, sabem a hora a que o despertador toca. Na Natureza, reconhecem as diferenças de temperatura, o dia e a noite. O ciclo reprodutivo de muitas espécies é regulado pelo número de horas de luz, tal como em nós, humanos, o ambiente também influencia a libertação de hormonas. É necessário fazermos esta análise quando pensamos em questões sensíveis no que diz respeito à qualidade de vida dos nossos bichos. Pensemos na eutanásia. Saberá um cão ou um gato, quantos anos viveu? Orgulha-se de ser idoso e ter muitas histórias para contar? Muitas vezes, enternecidos, recordamos com carinho a vida dos nossos companheiros de quatro patas. Podemos até ter por eles um respeito diferente, digno da provecta idade que têm. E merecem-no. Isso é algo que lhes atribuímos.
Tenho ouvido donos orgulhosos referirem-se à longevidade dos seus animais: o seu cão viveu 14 anos! Dizem-no com orgulho, como que a comprovar as suas qualidades de detentor. Na verdade, ouvindo mais um pouco, percebe-se que o mérito de tamanha longevidade se deve aos atributos genéticos do animai: viveu preso por uma corrente de um metro durante 14 anos, tendo contacto com o dono apenas quando era alimentado com os restos azedos do jantar do dia anterior. Que interessou àquele cão viver 14 anos? Nunca correu, nunca explorou, nunca teve contacto próximo com o seu humano. Para quê, 14 anos? Do outro lado da trincheira, está uma gata em fase terminal: já não come, apesar de todos os internamentos. Fase terminal. Nada mais a fazer. A dona in
siste na entubação nasogástrica para que o animal continue a alimentar-se. Resiste, assim, duas semanas. Internada. Desconfortável, coberta de fios e sondas. Não reage, apenas tenta resistir quando é manipulada. Só quer sossego. O que é gostar de animais? O que é tratá-los bem? Eles não sabem se vivem muito ou pouco tempo. Vivem dia a dia, momento a momento, e só sabem se estão felizes ou infelizes. Ah, temos tanto a aprender com eles! Acima de tudo, que nos lembremos disto: deixemos o cão ser cão. O gato ser gato. A galinha ser galinha, espanejar-se, cacarejar, fazer um ninho. E que nós, humanos, sejamos humanos. Que tenhamos humanidade para amar e respeitar a natureza de cada ser que se nos apresentar, sem, contudo, o humanizar.

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