Home > Crónicas > Extinção e roubo dos Conventos Torrejanos

Extinção e roubo dos Conventos Torrejanos

A trinta de Maio de 1834, o governo de D. Pedro (1798-1834), pela traiçoeira mão do então Ministro da Justiça, Joaquim António de Aguiar (1792-1884), desferia o derradeiro golpe sobre as fragilizadas ordens religiosas do país. Era o culminar dos constantes ataques perpetrados, a partir de 1820, pelos proclamados arautos da liberdade. A urgente e profunda reforma das ordens monásticas nunca esteve nas cogitações dos liberais. Mais interessados em perseguir e espoliar o rico património de uma classe social que abominavam.

Um dia após a apresentação da proposta sobre as ordens religiosas, pelo denominado mata-frades, saía no nº 127, da “Crónica Constitucional de Lisboa”, o repugnante decreto (datado de vinte e oito de Maio) que extinguia os conventos, colocando as suas riquezas sob a alçada da cobiça dos vencedores da sangrenta e fratricida guerra civil. O próprio governo não teve pudores em participar no vergonhoso saque ao rico património das ordens religiosas.

Despojados dos seus bens os frades foram expulsos dos conventos, sem que o governo acautelasse o futuro incerto dos velhos cenobitas que tinham dedicado toda a sua vida no amor ao próximo, ao saber e a Deus. Até mesmo, os enfermos e os paralíticos, que convalesciam nas enfermarias dos conventos, não escaparam à abjecta ordem de expulsão.

O governo, como forma de suavizar a monstruosa medida, ainda acenou com a ideia de ressarcir os frades lesados. Mas o que foi promulgado no decreto, para salvaguarda dos indefesos religiosos (e só para os adeptos dos liberais!), ficou como letra morta. A promessa de pensão para os eclesiásticos seria uma mera miragem.

Abandonados, os frades caíram na mais extrema pobreza. Muitos deles sucumbiriam à fome e ao frio. Esta atroz realidade causou uma enorme revolta entre uma das mentes mais esclarecidas do século: o historiador Alexandre Herculano (1810-1877). A filiação do ilustre escritor ao partido liberal não toldou a sua crítica ao torpe e cruel desenlace provocado pelo decreto do mata-frades. O “exilado” de Vale de Lobos chega a comparar, no seu pungente texto “Os Egressos”, o sofrimento e o drama dos frades ao que fora vivido pelos mártires primitivos, que “morreram nos ecúleos, nas garras das feras, nos leitos de fogo” (HERCULANO, Alexandre; “ Os Egressos”, in “ Opúsculos”, tomo I,1873, pág. 153). A sentida revolta do distinto escritor vai ao ponto de amaldiçoar a sua iluminada geração. Assente na ideia de progresso e na filosofia. Mas desprovida do que nos torna humanos: a alma e a compaixão.

Expulsos os frades, das suas seculares propriedades, o governo e os vencedores liberais, logo trataram de saciar a sua cobiça nos lautos bens e rendas das ordens eclesiásticas. Alguns dos senhores da guerra abocanharam parte preciosa do espólio dos frades como retribuição por despesas militares. O governo fez entrar nos seus exauridos cofres uma pequena parte do património das ordens religiosas, já que o que foi vendido em hasta pública era pago através de papéis, de valor fictício, dado aos grandes senhores. Foi um fartar vilanagem em nome da Liberdade e da Razão. O banditismo imperava à solta, alimentado e protegido pelos partidos do reino.

Na disputa pelos bens dos cenobitas desapareceram criminosamente objectos preciosos, mobiliário, bibliotecas, pinturas, manuscritos, roupas… Os valores e as perdas provocadas pela extinção dos conventos foram imensos. Chegou-se ao ponto de vender obras valiosíssimas a granel. Manuscritos de elevada importância histórica e as folhas de livros seculares eram utilizados para embrulhar quinquilharias, peixe, carne… Muitas das pedras esculpidas, pertencentes aos conventos, serviram para a construção de novas casas (talvez a enigmática inscrição encontrada no Alvorão e referida por Artur Gonçalves (“Mosaico Torrejano”, pág. 459-450) seja uma das pedras retiradas do extinto Convento de Nossa Senhora da Conceição, de que mais à frente falaremos).

Anos depois, em 1842, foi publicado o livro “ Colecção das Contas Correntes dos Objectos Preciosos de Ouro, Prata, e Jóias que pertenceram aos Conventos, e Corporações Extintas do Continente do Reino” como forma de esclarecer o público sobre o paradeiro de alguns dos objectos religiosos dos conventos. O mapa faz referência a um número superior a quatrocentas instituições religiosas. No distrito de Santarém o número de casas suprimidas ultrapassou as três dezenas. Em Torres Novas os conventos referidos no livro são: o Convento de Nossa Senhora da Conceição – Ordem dos Carmelitas Calçados e o Convento de Santa Cruz – Ordem de São Francisco, Província D´Arrábida. A outra instituição torrejana referenciada é a Congregação do Oratório. Os objectos inventariados são, principalmente, paramentos utilizados na cerimónia religiosa. Desconhece-se o destino que levou outros importantes objectos existentes nos conventos. Para já não falar do valor exacto da selvática alienação do património de terras e de rendimentos pertencentes aos religiosos.

Em relação ao convento de Nossa Senhora da Conceição, segundo o mapa, os objectos inventariados cálices, chapas, colheres, coroas, custódias, patenas, píxides, resplendores, tiveram destinos diferentes: ao Vigário de Constança foi atribuída uma píxide; à Paróquia e Alcorochel, um cálice, uma colher e uma patena; à paróquia do Salvador, um cálice, uma colher, uma patena e uma píxide. A Irmandade do Rosário seria beneficiada com uma coroa. O convento forneceria uma coroa e um resplendor para ornamento das Imagens. O relatório refere o desconhecimento do paradeiro de uma chapa e de uma custódia que faziam parte do espólio do Convento de Nossa Senhora da Conceição.

Quanto ao Convento de Santa Cruz, alguns dos seus objectos preciosos caíram na posse de particulares. Foram os casos do futuro Conde de Torres Novas, António César de Vasconcelos Correia e do fidalgo Luís de Atouguia (esta foi uma pequena parte dos despojos atribuída aos vencedores). Outros vasos sagrados e paramentos foram supostamente entregues à Paróquia da Aldeia da Cruz, à Paróquia de Alcanena e à de São Vicente de Abrantes. Destinos diferentes tiveram os objectos em ouro e prata, da Congregação do Oratório de Torres Novas. Entraram directamente na Casa da Moeda, em 1840. O elevado valor das peças espoliadas à Congregação nem sequer foram quantificados pelo relator do mapa.

Durante este período negro da História, Torres Novas assistiu à demolição de alguns dos seus conventos. Deles hoje restam pequenos fragmentos ou algumas inscrições. Outros edifícios e propriedades pertencentes às ordens religiosas seguiram o mesmo caminho da espoliação. A 2 de Dezembro de 1835, foi presente um ofício à Câmara, dando conta da concessão do Hospício ou Enfermaria de Nossa Senhora da Assunção, dos Frades Arrábidos, situada na actual Ladeira da Enfermaria do Hospital (Babalhau), para nela a Câmara estabelecer “a Escola Primária de Ensino Mútuo” (modelo de ensino em voga na altura). E não “místico”, “maternal” ou “misto”, como aparecem nas diversas monografias torrejanas (Lº de Actas, nº17, fl.55v.). Esta provisória medida pretendeu compensar a população torrejana face ao duro golpe desferido na rede de ensino sustentada pelos frades dos conventos.

Nesta conturbada época assistiu-se a um dos maiores assaltos aos bens das instituições religiosas. De que resultaram enormes perdas a nível cultural e histórico na maior parte das localidades do reino.

Também a vila de Torres Novas não passou incólume à onda de barbárie e de cupidez que varreu o país.

Texto escrito com a antiga ortografia

Vitor Antunes

Deixe-nos o seu comentário pelo facebook

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *