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Um Militar Torrejano na Revolta Monárquica de Monsanto

Sob as ordens do capitão torrejano Júlio da Costa Pinto iam cerca de 120 civis, entre os quais figuravam alguns nomes importantes da cultura nacional, como Hipólito Raposo, Joaquim Leitão, Pequito Rebelo, Hintze Rebelo, Conde de Arrochela, José Bramão, Félix Correia, Eduardo Romero (pai), Vieira de Castro, António Caldeira… Marchavam como soldados, unidos na esperança da vitória da causa monárquica. Em Monsanto reuniram-se também muitos militares provenientes dos regimentos Lanceiros 2, de Cavalaria 4, das Baterias de Queluz, de Cavalaria 7 (comandados pelo alferes torrejano Pessoa de Amorim) e diversas unidades de artilharia… Alguns regimentos militares lisboetas recusaram-se a acompanhar os realistas. Como aconteceu com a Infantaria 16. O capitão Júlio da Costa Pinto, antes de partir para Monsanto, ainda tentou dissuadir o comandante, Gonçalo Pimenta de Castro, a acompanhá-los, evocando velhas decisões. O militar torrejano não conseguiu dissuadir o antigo simpatizante realista e foi tomar conta dos seus civis. A recusa do chefe da Infantaria 16 apressaria a derrota dos monárquicos. A falta de munições e de mantimentos, que poderiam ser municiados por este regimento, revelou-se fatal para as aspirações realistas no derrube do regime republicano.

Em Monsanto, o lugar-tenente do rei D. Manuel II, Aires de Ornelas (1866-1930), assumiu a chefia da revolta. A seu lado, no comando, estavam o antigo herói de África, João de Azevedo Coutinho (1865-1944), e como ajudante o Dr. Pequito Rebelo (1892-1983).

Os monárquicos começaram por ocupar posições estratégicas na vasta área da serra lisboeta. Ao longo do primeiro dia da revolta, a 22 de Janeiro de 1919, os realistas tomaram a estação de telegrafia sem fios de Monsanto, onde se instalou o quartel-general dos revoltosos. Depois de completada a ocupação, os monárquicos perfilaram-se para receber os primeiros ataques dos republicanos. Aconteceu na manhã do dia 23 de Janeiro. As forças republicanas, comandadas pelo Tenente-Coronel Ernesto Vieira da Rocha, iniciaram o ataque entrincheirando os monárquicos na serra de Monsanto. De um lado e do outro soavam os canhões de artilharia. A contagem de mortos e de feridos aumentava. O fogo letal das armas provocava vítimas entre seres humanos e muares.

Os civis comandados pelo torrejano Júlio da Costa Pinto, no lugar dos moinhos do alferes e do carrascal, sustinham galhardamente a ofensiva republicana. Nesse dia, em Monsanto, era arvorada a bandeira monárquica ao som do estampido de cargas e da enorme algazarra dos realistas.

O combate continuava. De ambos os lados a luta era intensa e heróica. No sector realista, o torrejano Júlio da Costa Pinto e os seus civis, respondiam briosamente aos ataques dos republicanos. As munições começavam a escassear do lado dos monárquicos. Ainda chegariam algumas munições conseguidas pela acção heróica de alguns voluntários. Mas eram insuficientes para um exército falho de material bélico e de mantimentos.

Ao segundo dia da batalha, na manhã de 24 de Janeiro, o cerco a Monsanto, por parte dos republicanos, começava a dar resultados. Exaustos e quase sem munições os realistas ainda pensaram romper o cerco no sector de Ajuda. Mas as tropas republicanas reforçavam-se cada vez mais. A luta ia prostrando valorosos soldados no campo monárquico. A morte do cadete Jaime Furtado (grande admirador da tenacidade e heroísmo de Júlio da Costa Pinto) faria aflorar no rosto do torrejano ilustre sentidas lágrimas. Mas mal teve tempo de as enxugar e de sufocar um suspiro, visto que os republicanos aproximavam-se em grande número e eram cada vez mais audazes. Nas Cruz das Oliveiras os civis continuavam a resistir. Sem munições os realistas foram obrigados a recuar. O torrejano Júlio da Costa Pinto dera a ordem para se retirarem a passo. A marcha, até à Luneta dos Quartéis, foi executada sob o seu comando, desafiando a chuva de balas disparadas pelos republicanos. De vez em quando caía um realista apanhado pelo intenso tiroteio. Mas ninguém se desviava do caminho, seguindo o exemplo e a bravura do seu chefe, Júlio da Costa Pinto.

Em todos os sectores realistas a situação era desesperada. A perda de muares e a falta de munições impossibilitava a resposta ao fogo dos republicanos e também ao projectado plano de romper as linhas inimigas. O assalto republicano dava-se por todos os lados. Às quatro horas e meia da tarde, do dia 24 de Janeiro de 1919, soou no campo realista a ordem de cessar-fogo. A bandeira monárquica dava lugar a um pano branco. Em sinal de rendição.

Os principais chefes da rebelião seriam presos. Costa Pinto ainda tentou fugir para se juntar aos combatentes da Monarquia do Norte. Mas é apanhado pelos republicanos para depois ser conduzido ao forte. Já tinha transposto a porta quando a turba irada dos vitoriosos o reconheceu e trouxeram-no novamente para fora do cárcere, com o intuito de obrigar Costa Pinto a beijar a bandeira republicana. Amarrado pelo grupo enfurecido, o torrejano ilustre gritou-lhes com um claro e rotundo: “Nunca!”. A sua persistente resistência ao repto dos republicanos desencadeou o ódio irracional dos vencedores. Uma coronhada abriu-lhe a cabeça, murros e insultos caíam sobre ele. Foi salvo por uns marinheiros que iam a chegar e o resgataram das mãos dos algozes, entre insultos, pedradas e tiros. O rosto de Costa Pinto estava coberto de sangue. O mesmo sangue com o qual inundou a bandeira da República que o queriam cobrir.

A arrojada aventura de Júlio da Costa Pinto na “Revolta de Monsanto” valeu-lhe a detenção no Presídio Militar de Lazareto. Mais tarde, em Setembro, é transferido para a Cadeia Nacional de Lisboa. Dois anos depois é libertado.

Em nenhum momento da sua vida, o ex-capitão Júlio da Costa Pinto renegou a sua fidelidade à causa monárquica. A exemplar nobreza de carácter do torrejano ilustre seria recompensada pela rainha D. Amélia (1865-1951), que o fez seu secretário pessoal.

Vitor Antunes

Texto escrito com a antiga grafia

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